QAnon: a teoria da conspiração começa a causar preocupação no mundo todo

Como você reagiria se lhe dissessem que a Covid-19 é a uma criação de Bill Gates? O que você pensaria se lhe contassem que a vacinação contra a doença será iniciada tendo como real propósito a implantação de um microchip nas pessoas, que permitirá que elas sejam monitoradas? Imagine que também lhe digam que o novo coronavírus é uma arma biológica projetada para matar somente pedófilos ou, ainda, que basta tomar um alvejante para que a doença seja curada.

Parece improvável que alguém acredite nesse tipo de pensamento, não é mesmo? Porém, esta é apenas uma pequena amostra dos absurdos que milhares de adeptos da teoria da conspiração QAnon estão espalhando pelo mundo. Visto como um verdadeiro culto à teoria da conspiração, o grupo intensificou as atividades nas redes sociais após o início da pandemia e está causando preocupação nas autoridades norte-americanas pelo posicionamento extremista que adota.

A maior parte das mensagens é disparada dos Estados Unidos mesmo. Entretanto, a atividade vem crescendo em vários outros países, como na Alemanha, na Inglaterra e, inclusive, aqui no Brasil.

Cabalismo e Trump como salvador do mundo

Tudo começou em outubro de 2017, quando, anonimamente, alguém publicou em um fórum no 4chan um tópico intitulado “A calma antes da tempestade”.  Se identificando apenas como “Q”, a pessoa falava de uma investigação que estaria sendo coordenada pelo presidente dos Estados Unidos Donald Trump e que seria destinada a identificar e a prender estrelas de Hollywood e figurões da política norte-americana que estariam envolvidos com corrupção e pedofilia.

Desde então, outras mensagens foram surgindo, grande parte delas em apoio a Trump, e formando em torno delas um grupo de seguidores e disseminadores da teoria da conspiração. O “Q” da denominação do grupo, naturalmente, vem daquele internauta que publicou a primeira mensagem. O complemento “Anon” é uma referência ao anonimato sob o qual muitos dos propagadores dos absurdos se abrigam.

Os seguidores do QAnon se alinham pelo lema were we go one we go all — abreviado como WWG1WGA que pode ser traduzido mais ou menos como onde formos um vamos todos. Além de venerar o presidente Trump, os seguidores do QAnon acreditam que há um estado paralelo oculto dominado por uma elite cabalista adoradora do diabo, que tem como propósito controlar a população mundial. Para eles, Trump seria o salvador do mundo.

Risco no mundo real

Enquanto o culto se limitava a causar intrigas na internet, não havia tantos motivos para preocupação. Contudo, desde que o início da pandemia, há o temor de que o movimento passe a provocar danos ao mundo real, o que, inclusive, levou o QAnon a ser monitorado pelo FBI.

Em entrevista à jornalista Emma Allies, da BBC, parentes demonstraram grande preocupação com os comportamentos de filhos, netos ou irmãos que passaram a seguir o QAnon. Para alguns, o grupo pode ser visto como uma espécie de seita que, a exemplo de tantas outras, estaria dominando o pensamento das pessoas.

No último dia 22, o Twitter, um dos principais meios de manifestação do QAnon, resolveu agir para barrar as ações do grupo na plataforma. Com isso, 7 mil contas já foram bloqueadas e há perspectiva de que mais 150 mil possam seguir pelo mesmo caminho. Como justificativa, o Twitter alega que as publicações dos seguidores do QAnon violam a política daquela rede social, considerando que muitas delas pregam atitudes que podem levar as pessoas a contraírem o novo coronavírus. Há membros do grupo, por exemplo, que alegam que a Covid-19 não passa de um embuste, criado para controlar a população mundial.