Matilda – Compras no supermercado

por Paula Brandão *

Sim, existe uma diferença básica entre pessoas no supermercado. É uma questão de lógica e gostos. Algumas pessoas são práticas e outras, além de práticas……como explicar em uma palavra o tempo que essas gastam em uma comprinha de supermercado apenas? Salvo, é claro, algumas exceções, que são as chamadas pessoas objetivas por demais, assim como Matilda, dependendo do ponto de vista. Ela é capaz de ficar somente instantes em uma gôndola de qualquer supermercado, mas, na visão da tia, Matilda demora demais. Independente do estilo, o fato é que Matilda foi fazer compras para sua tia. Quem leva mais tempo?

A vida de Matilda no supermercado é simples. Ela chega, entra, pega os produtos que precisa, paga e vai embora. Bom, isso se a lista foi feita por ela mesma, no papel ou na cabeça. Porque se foi feita pela tia, com certeza ela vai ter em mãos um labirinto em forma de letrinhas. É só observar aqueles belos momentos, em que sua tia escreve algo indecifrável e Matilda fica parada em frente à um produto logo ali na prateleira…por séculos. Ela olha para a lista, olha para a prateleira, torna a olhar para a lista, checa a prateleira novamente, vira para o lado esquerdo ou direito, coça a cabeça, abaixa, procura algo na prateleira de baixo, ajeita os óculos, pega um produto, devolve no lugar errado, retira outro, lê tudo que está escrito na embalagem (mas a feição é de quem não sabe o que é aquilo, porque a explicação na lista contém seis linhas de definições inacabáveis), até que resolvem pegar o telefone e ligar para a figura feminina do outro lado da linha. A tia.

Neste momento, ela faz um ar de alívio, dá um leve sorriso e desliga o telefone. E, então, olha novamente para a lista, concluindo que ela falara mais do que estava escrito, dera as coordenadas e, além disso tudo, acrescentara três coisas que não estavam incluídas. Tem gente que até tenta ajudar, mas explicar é tão complicado que é preferível arriscar e levar baseado na intuição (Isso não vai funcionar!). Após muitos minutos de análise, técnica e justificativa, Matilda sai com o produto escolhido e a lista de cabeça para baixo na mão direita. Na lógica, não faz diferença um ou outro, tudo é atum mesmo! Que ela tenha a sorte de ter pegado o produto correto! Senão…

Já a vida da tia de Matilda no supermercado desafia a complexidade da psicologia comportamental. Primeiro que ela (não mencionando as exceções) tem duas listas. Uma que é feita em casa, generosa, perfumada e longa e outra que é feita enquanto ela adquire os produtos da primeira. Quando a tia de Matilda chega em um supermercado, lá se vai parte do dia. E se ela pegar um carrinho grande, pode esquecer e lembrar no dia seguinte. Mulher anda no supermercado em zigue zague. Zigue para ir em um corredor e zague para voltar….no mesmo corredor. A tia da Matilda é uma mulher igual às outras que fazem isso. Começa pela parte do canto e na segunda linha de produtos já faz o primeiro pitstop. E aí que a porca começa a torcer o rabo, pois a calculadora mental já entra em atividade, assim como a análise complementar de marcas, preços, cores e idiomas de cada produto. Olha de uma marca a outra, uma terceira, volta na primeira, devolve a segunda, define pela quarta, anda com o carrinho uns dois metros, volta lá atrás, analisa tudo outra vez, troca o produto, resolve deixar por último e empurra o carinho para a próxima gôndola. Opa! Uma novidade nessa prateleira. Melhor ler o rótulo, ver a gravura, associar com a vida social, profissional ou pessoal, pensar se vale a pena levar e finalmente, deixar o produto onde está, prometendo a si mesma que olha com mais calma e critério na próxima vez.

Agora é a vez de voltar no mesmo corredor e prestar atenção no lado oposto. Tudo de novo, again and again and again. O tempo vai passando e o carrinho vai enchendo. Se a compra é rápida, demora bastante, se é uma compra maior, haja eternidade para tanta demora. Isso sem contar as especialidades que a tia de Matilda adora, que fazem parte do cardápio chique da lista de compras. O fato é que as compras estão já quase na metade e, de repente, ela lembra que está faltando uma coisa em casa que estava lá no primeiro corredor. Então o jeito é voltar, pegar a tal coisa e continuar na mesma sequência, para não perder nem um minuto sequer dos espaços ocupados pelos artigos de consumo. De volta onde estava. Lista da frente do papel feita, falta apenas o restante que está na memória e a parte de trás dos escritos. Isso mais parece uma linguagem criptográfica do que uma lista de supermercado.

Zigue, zague, zague zigue. Fim do emaranhado. Só falta pegar os frios, que deixou por último, os legumes e verduras que não podem ficar embaixo para não amassarem e o pão que iria ser reposto em cinco minutos, já que uma freguesa da casa avançou no último pacote alegando que seu bichinho de estimação não comia outra marca. Carrinho preparado, compras finalizadas, coisas colocadas na sacola. Tia da Matilda com o carrinho abastecido, e olha que não precisa ser uma compra para o mês, o procedimento é o mesmo para qualquer tamanho de lista.

Ih….ela esqueceu que tem visita à tarde e precisava pegar mais uma garrafa de suco, uns petiscos, o patê, o mamão para completar a salada de fruta e o coador, pois o dela furou e a visita não gosta de café com pó na xícara. Tudo bem, isso é fácil. E o resto ela tira de letra.

Ah! Também o produto que o marido, namorado, amigo ou parente assim não conseguiu comprar pela manhã. Foi fácil dessa vez. Pode fechar a conta, por favor! A tia de Matilda sorri esbaforida.

 

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