Especialista explica o que os cientistas sabem até o momento sobre a variante Ômicron

Último susto provocado pela Covid-19, a variante B.1.1.529 do SARS-CoV-2, que foi descoberta recentemente na África do Sul, tem dado o que falar. Batizada Ômicron pelos cientistas, felizmente, até o momento, ela tem provocado mais apreensão do que estragos verdadeiros na saúde pública, o que não significa que possa ser desdenhada.

O grande impacto causado pela descoberta, por enquanto, diz respeito ao número de mutações que o vírus sofreu — em um total de 50, 32 das quais na proteína spike. Há uma grande preocupação com relação a essa proteína, pois é justamente ela que é utilizada pelas vacinas de RNA mensageiro para induzir a produção de anticorpos no organismo. Além disso, o número elevado de mutações pode representar que o vírus tenha adquirido maior capacidade de transmissão e de escapar das defesas imunológicas.

Porém, por enquanto, há mais dúvidas do que certezas com relação à nova mutação. Diante disso, em artigo publicado no The Conversation, o professor de Doenças Infecciosas Emergentes da Universidade de Penn State, nos Estados Unidos, Suresh V. Kuchipudi, explica o que de fato se sabe até agora sobre o assunto. Kuchipudi é virologista especializado em epidemias e em pandemias e tem se dedicado a pesquisar o desenvolvimento da Covid-19.

Mutação esperada

Se já é complicado lidar com um vírus tão impactante quanto o SARS-CoV-2, pior é pensar que ele possa sofrer mutações e se tornar ainda mais agressivo. Porém, de acordo com Kuchipudi, esta é uma condição esperada dos vírus, sejam eles quais forem. “Por meio da seleção natural, mutações aleatórias se acumulam em qualquer vírus. Esse processo é acelerado em vírus de RNA, incluindo o SARS-CoV-2. Se e quando um conjunto de mutações fornece uma vantagem de sobrevivência a uma variante em relação a seus predecessores, a variante superará todas as outras variantes de vírus existentes”, ele explica.

Segundo o especialista, o simples fato de a variante Ômega apresentar tantas mutações não é suficiente para defini-la como mais perigosa. “As condições que levaram ao surgimento da variante ainda não estão claras, mas o que está claro é que o número de cisalhamento e a configuração das mutações no Ômicron são incomuns”, revela.

Possíveis motivos

Para o professor, infecções prolongadas podem explicar o surgimento de variantes virais com múltiplas mutações, que seriam ocasionadas pela rápida evolução viral . “Os pesquisadores levantaram a hipótese de que algumas das variantes anteriores do SARS-CoV-2, como a variante Alfa, podem ter se originado de um paciente infectado persistentemente. No entanto, a constelação incomum e numerosas mutações na variante Ômicron a tornam muito diferente de todas as outras cepas de SARS-CoV-2, o que levanta questões sobre como isso aconteceu”, diz.

Kuchipudi destaca que os cientistas também têm considerado a possibilidade de as variantes se desenvolverem em hospedeiros animais. “O vírus que causa COVID-19 pode infectar várias espécies animais , incluindo visons, tigres, leões, gatos e cães. Em um estudo que ainda não foi revisado por pares, uma equipe internacional que lidero relatou recentemente uma infecção generalizada por SARS-CoV-2 em cervos de cauda branca de vida livre e em cativeiro nos Estados Unidos. Portanto, também não podemos descartar a possibilidade de que a variante Ômicron tenha emergido em um hospedeiro animal por meio de rápida evolução”, avalia.

Por que a Delta dominou o mundo?

De acordo com o virologista, a variante Delta é entre 40% e 60% mais transmissível do que a Alfa e quase duas vezes mais transmissível do que o vírus SARS-CoV-2 original identificado pela primeira vez na China. “A transmissibilidade elevada da variante Delta é a principal razão pela qual os pesquisadores acreditam que ela foi capaz de competir com outras variantes para se tornar a cepa dominante”, diz Kuchipudi.

O professor observa que um fator de destaque na aptidão viral está na rapidez com que um vírus consegue fazer cópias de si mesmo. “A variante Delta se replica mais rápido do que as variantes anteriores do SARS-CoV-2, e um estudo ainda não revisado por pares estimou que produz 1.000 vezes mais partículas de vírus do que seus predecessores”, compara.

Além disso, Kuchipudi afirma que as pessoas infectadas com a variante Delta estão produzindo e eliminando mais vírus, que é outro mecanismo que aumenta a capacidade de propagação. Segundo o professor, a variante Delta também adquiriu mutações que permitiriam que ela evitasse os anticorpos neutralizantes, que desempenham papel fundamental na defesa do corpo contra um vírus invasor. “Isso poderia explicar por que, como vários relatórios mostraram, as vacinas contra a Covid-19 foram um pouco menos eficazes contra a variante Delta . Essa combinação de alta transmissibilidade e evasão imunológica pode ajudar a explicar como a variante Delta se tornou tão bem-sucedida”, admite.

A Ômicron veio vai substituir a Delta?

Para Kuchipudi, ainda é muito cedo para que esse tipo de avaliação seja feita. “A Ômicron compartilha algumas mutações com a variante Delta, mas também possui outras que são bastante diferentes. Mas, uma das razões pelas quais nós, na comunidade de pesquisa, estamos particularmente preocupados é que a variante Ômicron tem 10 mutações na proteína spike em comparação com apenas duas para a variante Delta”, diz.

Partindo da suposição de que a combinação de todas as mutações na Ômicron a torne mais transmissível e menos vulnerável à defesa imunológica do que a Delta, Kuchipudi considera que é possível que essa variante se propague globalmente. “No entanto, também é possível que o número excepcionalmente alto de mutações possa ser prejudicial para o vírus e o torne instável”, pondera.

O fato é que o virologista considera altamente provável que a variante Ômicron não seja a última. “Como o SARS-CoV-2 continua a se espalhar entre os humanos , a seleção natural e a adaptação resultarão em mais variantes que poderiam ser mais transmissíveis do que o delta. Sabemos pelos vírus da gripe que o processo de adaptação viral nunca termina . Taxas de vacinação mais baixas entre muitos países significam que ainda existem muitos hospedeiros suscetíveis ao vírus e que ele continuará a circular e a sofrer mutações enquanto puder se espalhar. O surgimento da variante Ômicron é mais um lembrete da urgência de vacinar para impedir a propagação e evolução da SARS-CoV-2”, conclui.

 


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