{"id":3499,"date":"2023-03-28T07:00:07","date_gmt":"2023-03-28T10:00:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.comunidadeativa.jor.br\/?p=3499"},"modified":"2023-03-28T17:17:09","modified_gmt":"2023-03-28T20:17:09","slug":"entrevista-com-o-escritor-leo-cunha-que-completa-30-anos-de-literatura-infanto-juvenil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.comunidadeativa.jor.br\/index.php\/2023\/03\/28\/entrevista-com-o-escritor-leo-cunha-que-completa-30-anos-de-literatura-infanto-juvenil\/","title":{"rendered":"Entrevista com o escritor Leo Cunha, que completa 30 anos de literatura infanto-juvenil"},"content":{"rendered":"<p><em>Morador do Anchieta desde de 2004, o escritor Leo Cunha est\u00e1 completando 30 anos de dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 literatura infanto-juvenil. Nesse per\u00edodo, ele j\u00e1 publicou mais de 80 livros, que lhe renderam v\u00e1rios pr\u00eamios \u2014 como o Jo\u00e3o-de-Barro, Jabuti, Nestl\u00e9, o Adolfo Aizen, da Funda\u00e7\u00e3o Nacional de Literatura Infantil e Juvenil (FNLIJ), da Biblioteca Nacional, e do Concurso Nacional de Hist\u00f3rias Infantis do Paran\u00e1, entre outros.<\/em><\/p>\n<p><em>Leo \u00e9 casado com a publicit\u00e1ria Val\u00e9ria e pai de Sofia (23) e de Andr\u00e9 (14), inspiradores de v\u00e1rias de suas hist\u00f3rias. Filho do m\u00e9dico Eun\u00e1pio Antunes de Oliveira, que tamb\u00e9m \u00e9 fonte de inspira\u00e7\u00e3o, e da professora Maria Antonieta Antunes Cunha, que \u00e9 membro da Academia Mineira de Letras e fundadora da editora Miguilim e da livraria de mesmo nome, desde bem pequeno, o escritor se habituou a viver entre os livros.<\/em><\/p>\n<p><em>Mais do que isso, experimentou uma conviv\u00eancia muito pr\u00f3xima com a literatura voltada para crian\u00e7as e para adolescentes, o que teve forte influ\u00eancia sobre a sua forma\u00e7\u00e3o profissional. Ali\u00e1s, uma forma\u00e7\u00e3o que se tornou bastante ecl\u00e9tica, como ele pr\u00f3prio assume.<\/em><\/p>\n<p><em>Leo \u00e9 graduado em Jornalismo e em Publicidade, p\u00f3s-graduado em Literatura, mestre em Ci\u00eancias da Informa\u00e7\u00e3o e doutor em Belas Artes, com pesquisa sobre Cinema. Mas, como ele conta nessa entrevista para o <strong>Comunidade Ativa<\/strong>, tudo isso formou um \u00f3timo caldo que o ajuda na atividade liter\u00e1ria.<\/em><\/p>\n<p><strong>CA &#8211; Em 30 anos de carreira liter\u00e1ria voc\u00ea j\u00e1 publicou mais de 80 livros. \u00c9 uma bela marca, n\u00e3o \u00e9?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Leo Cunha &#8211; <\/strong>Realmente, as pessoas \u00e0s vezes se espantam quando veem: \u201cNossa, 80 livros publicados!\u201d. Parece uma produ\u00e7\u00e3o fren\u00e9tica, mas, na verdade, n\u00e3o \u00e9 isso. Quem escreve literatura infantil, juvenil, como \u00e9 o meu caso, especialmente no caso dos livros infantis, escreve livros curtos. \u00a0S\u00e3o livros com 30, 40, 50 p\u00e1ginas, mas com muitas ilustra\u00e7\u00f5es.\u00a0Ent\u00e3o, o texto corrido \u00e9 curto. S\u00e3o algumas poucas p\u00e1ginas.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que durante um ano eu escrevo muito mais do que algumas p\u00e1ginas. Se pensar s\u00f3 em texto para o p\u00fablico infantil, eu escrevo, rescrevo, edito, e consigo completar tr\u00eas, quatro, at\u00e9 cinco textos. Nem todos v\u00e3o ser publicados, evidentemente. Ent\u00e3o, se a gente pensar em 80, 90 livros num espa\u00e7o de 30 anos, d\u00e1 uma m\u00e9dia de tr\u00eas livros por ano, o que torna esse n\u00famero menos impactante.<\/p>\n<p>O importante \u00e9 que eu tenho essa produ\u00e7\u00e3o constante. Isso que eu acho que \u00e9 o mais legal. Muitas vezes o escritor publica um, dois, tr\u00eas livros e a\u00ed desanima e para. N\u00e3o faz aquele sucesso todo logo no in\u00edcio e muda de g\u00eanero ou abandona.\u00a0Eu, como eu tive a sorte de logo nos primeiros livros ganhar pr\u00eamios, ter reconhecimento, eu mantive esse ritmo, essa const\u00e2ncia ao longo de 30 anos, e cheguei \u00e1 marca bacana de 80 livros ou at\u00e9 um pouco mais do que isso.<\/p>\n<p><strong>CA &#8211; Na sua produ\u00e7\u00e3o predomina a literatura infanto-juvenil e isso faz lembrar de uma declara\u00e7\u00e3o atribu\u00edda a Monteiro Lobato, que teria se arrependido de escrever para adultos. Ele teria dito que se fosse para voltar ao mundo novamente seria para escrever mais hist\u00f3rias para crian\u00e7as. Se voc\u00ea pudesse voltar atr\u00e1s, continuaria escrevendo para crian\u00e7as?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Leo Cunha &#8211; <\/strong>Sim. Eu n\u00e3o vou dizer que, se eu voltasse atr\u00e1s, teria escrito as mesmas coisas. Isso \u00e9 muito dif\u00edcil de dizer. Inclusive, \u00e0s vezes, eu leio alguns textos meus dos meus primeiros livros e fico pensando como eu cheguei \u00e0quele texto, como a ideia veio, como o trabalho de linguagem veio.\u00a0\u00c0s vezes s\u00e3o coisas meio inexplic\u00e1veis. O texto tem muito a ver com o momento que voc\u00ea est\u00e1 vivendo, com o que que voc\u00ea est\u00e1 lendo naquele momento, com toda a sua experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Eu sou uma pessoa bem diferente do que era 30 anos atr\u00e1s, com outras leituras, com outras experi\u00eancias, com outras felicidades e tristezas e gostos e desgostos.\u00a0Mas, tenho muito orgulho dos livros que eu publiquei, que eu escrevi. Eu continuaria escrevendo para o p\u00fablico infanto-juvenil, que \u00e9 o tipo de livro com o qual eu sempre convivi.<\/p>\n<p>Desde a livraria da minha m\u00e3e, l\u00e1, quando eu era crian\u00e7a e adolescente, e at\u00e9 hoje, ainda continuo vivendo muito nesse mundo. Conhe\u00e7o a grande maioria dos escritores, dos ilustradores e editores da literatura para crian\u00e7a e para adolescentes no Brasil.\u00a0Gosto muito acho que \u00e9 um universo muito bacana. Por mais que \u00e0s vezes ainda seja visto com desd\u00e9m por quem n\u00e3o conhece esse universo ou por quem s\u00f3 escreve ou s\u00f3 l\u00ea literatura para adultos, \u00e0s vezes considera como se fosse uma coisa menor.<\/p>\n<p>Mas eu n\u00e3o tenho essa vis\u00e3o de jeito nenhum. Eu acho que a literatura infanto-juvenil \u00e9 de alt\u00edssima qualidade. Tem textos, imagens, projeto gr\u00e1fico e livros, considerando o conjunto, com obras de alt\u00edssima qualidade.<\/p>\n<p>Outra coisa bacana de escrever para esse p\u00fablico s\u00e3o as muitas oportunidades que a gente tem de conversar com o leitor. Eu vou muito a escolas, a feiras de livros, a eventos liter\u00e1rios no Brasil inteiro e tenho muita oportunidade de conversar, de responder perguntas, de trocar ideias.\u00a0No campo da literatura adulta s\u00e3o menos as oportunidades que os autores t\u00eam de ter essa intera\u00e7\u00e3o. Eu gosto muito. Sempre que me convidam, eu fa\u00e7o quest\u00e3o de participar.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, eu acho que a gente que est\u00e1 escrevendo tem uma certa responsabilidade, entre aspas, no sentido de que \u00e9 na inf\u00e2ncia que a crian\u00e7a est\u00e1 aprendendo a ter o contato com a leitura, est\u00e1 conhecendo o grande barato que \u00e9 a literatura, essa arte da palavra, de criar universos e ideias e imagens, mais no sentido figurado, e personagens e situa\u00e7\u00f5es e vis\u00f5es de mundo. Ent\u00e3o acho que a literatura para a inf\u00e2ncia tem essa responsabilidade, tem esse papel de ajudar a formar leitores. \u00c9 algo que me agrada muito que eu acho muito importante no Brasil<\/p>\n<p><strong>CA &#8211; O senso comum anda dizendo que a literatura n\u00e3o est\u00e1 vivendo seus melhores momentos, que o interesse pela leitura vem diminuindo muito ultimamente. Ver livrarias fechando ajuda a acreditar nisso. Mas, voc\u00ea apresenta evid\u00eancia contr\u00e1ria. Em geral, o gosto pelos livros come\u00e7a bem cedo e, pela sua produ\u00e7\u00e3o intensa, que tem livros esgotados, publicados em novas edi\u00e7\u00f5es, d\u00e1 pra concluir que a garotada continua gostando de ler. E ent\u00e3o? A literatura est\u00e1 ou n\u00e3o est\u00e1 com problema de p\u00fablico? O livro tem futuro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Leo Cunha &#8211;\u00a0<\/strong>O senso comum n\u00e3o est\u00e1 correto nesse caso. Nunca se publicou tanto. Na verdade, tem muitas editoras. Nos anos 70 e 80, por exemplo, existiam cinco ou dez editoras que publicavam para esse p\u00fablico infanto-juvenil. Hoje em dia tem 100 editoras, muito espalhadas pelo Brasil inteiro.<\/p>\n<p>Muitas editoras pequenas, ao lado de outras gigantescas. Ao mesmo tempo que a gente tem os grandes grupos editoriais, que publicam dezenas de livros, tem v\u00e1rias, muitas editoras pequenas que publicam tr\u00eas, quatro livros por ano, mas que s\u00e3o de alt\u00edssima qualidade. Ganham pr\u00eamios e se destacam junto \u00e0 meninada.<\/p>\n<p>Eu acho que n\u00e3o estamos num momento ruim n\u00e3o.\u00a0Claro, tem toda essa liga\u00e7\u00e3o dos jovens com as telas, com os videogames, com m\u00eddias sociais. Na minha \u00e9poca, claro que eu passava muito mais tempo lendo do que vendo televis\u00e3o, por exemplo.<\/p>\n<p>Hoje em dia, s\u00e3o muitas op\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m do livro e da televis\u00e3o, tem todas essas op\u00e7\u00f5es. Todos esses outros tamanhos e formatos e realidades de telas diferentes.<\/p>\n<p>Mas eu acho que a literatura continua muito forte. Especialmente at\u00e9 os 11, 12 anos, do Ensino Fundamental I, em que existe uma liga\u00e7\u00e3o com a leitura muito forte, especialmente no universo da escola.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei como vai ser o futuro, mas me parece que que a literatura infantil ainda tem muitos anos de vida, no livro, que tem essa coisa da ilustra\u00e7\u00e3o, do papel, do folheado, de compartilhar leituras. Eu acho que isso ainda vai longe.<\/p>\n<p><strong>CA &#8211; Voc\u00ea foi criado no meio dos livros. A professora Maria Antonieta, sua m\u00e3e, foi a criadora da livraria Miguilin, que voc\u00ea gostava de frequentar. Ou seja, \u00e9 f\u00e1cil concluir que tudo isso influenciou a sua decis\u00e3o de se tornar um escritor. Essa ideia de literatura acompanha voc\u00ea desde aqueles tempos de crian\u00e7a e adolescente?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Leo Cunha &#8211; <\/strong>Com certeza, ser criado no meio dos livros foi muito importante. Quanto mais a gente convive com livros, com hist\u00f3rias, com narrativas em geral, mais chance tem de se tornar um bom leitor.<\/p>\n<p>Quando eu falo \u201cbom leitor\u201d, \u00e9 claro, de literatura, mas tamb\u00e9m da vida, do mundo, das pessoas. A literatura tem essa capacidade de abrir os olhos para outras maneiras de enxergar o mundo, para conhecer um grande n\u00famero de personagens, de emo\u00e7\u00f5es, de sensa\u00e7\u00f5es, de dilemas, de conflitos e isso ajuda a gente a entender melhor o mundo. Entender melhor as rela\u00e7\u00f5es entre as pessoas entre pais e filhos, entre amigos, irm\u00e3os, alunos e professores.<\/p>\n<p>Todas as rela\u00e7\u00f5es humanas s\u00e3o objetos da literatura, como das outras artes tamb\u00e9m. Mas a literatura tem uma for\u00e7a de a gente poder entrar nos v\u00e1rios pontos de vista, nas mentes dos narradores e dos personagens de uma maneira que em outras artes n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o profundo. Na literatura voc\u00ea consegue acompanhar o pensamento, a vis\u00e3o de mundo de um personagem ou de um narrador.<\/p>\n<p>Nas outras artes essa presen\u00e7a muito forte de um narrador pode ficar for\u00e7ada ou ma\u00e7ante. Nas outras artes a gente est\u00e1 sempre vendo um pouco distanciado, meio de fora, aqueles personagens no cinema, no teatro.<\/p>\n<p>Na literatura voc\u00ea pode at\u00e9 ser o personagem. Voc\u00ea pode ler o livro como se voc\u00ea fosse o personagem, como se voc\u00ea estivesse na cabe\u00e7a daquele personagem.<\/p>\n<p><strong>CA &#8211; Quando a literatura foi tomando propor\u00e7\u00f5es profissionais, voc\u00ea j\u00e1 pensava em escrever para crian\u00e7as e adolescentes?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Leo Cunha &#8211; <\/strong>Sempre pensei. Exatamente por ter crescido no universo da literatura infantil, na livraria e na editora da minha m\u00e3e eu conheci muitos profissionais da \u00e1rea. Escritores, ilustradores, editores, designers, vendedores, livreiros, distribuidores, todo esse universo. Eu me encantei muito por esse mundo e principalmente pelas hist\u00f3rias, pelos livros, pelos poemas. \u00c9 um campo fascinante e, desde o in\u00edcio, eu me voltei pra ele.<\/p>\n<p>Eventualmente, eu escrevo alguns poemas ou cr\u00f4nicas que n\u00e3o t\u00eam esse p\u00fablico infantil em mente. Mas, quando eu come\u00e7o a escrever, quase sempre eu j\u00e1 estou pensando em me dirigir \u00e0 inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Quando falo em inf\u00e2ncia, falo das crian\u00e7as. Mas, tamb\u00e9m falo da inf\u00e2ncia do adulto, do idoso. O bom livro infantil \u00e9 aquele que est\u00e1 falando com essa inf\u00e2ncia, que o adulto tamb\u00e9m pode se interessar e se encantar pela hist\u00f3ria ou pelo poema<\/p>\n<p><strong>CA &#8211; Em <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=3iJ00YnQaZw\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">entrevista recente\u00a0 para o <em>Sempre um Papo<\/em><\/a> voc\u00ea disse que n\u00e3o come\u00e7ou a escrever para crian\u00e7as seguindo o que muitos autores fizeram quando tiveram filhos ou netos e se sentiram estimulados a escrever pra eles. Grande parte dos seus 30 anos como escritor se deu em meio \u00e0 experi\u00eancia como pai. Mas, voc\u00ea come\u00e7ou a escrever para o p\u00fablico infanto-juvenil antes&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Leo Cunha &#8211;\u00a0 <\/strong>Ao contr\u00e1rio de outros escritores, eu n\u00e3o comecei a escrever quando tive filhos. Existem muitos escritores que come\u00e7am a escrever para crian\u00e7as quando t\u00eam filhos. Eles est\u00e3o escrevendo para aqueles filhos e \u00e0s vezes os meninos crescem e \u00e0s vezes eles param. Aquilo j\u00e1 n\u00e3o traz tanto interesse, tanto gosto pra eles, que estavam escrevendo para contar hist\u00f3rias, para dialogar, para participar desse universo imagin\u00e1rio e da fantasia e das emo\u00e7\u00f5es da inf\u00e2ncia. A\u00ed, os meninos crescem e eles param.<\/p>\n<p>No meu caso, eu j\u00e1 escrevia dez anos antes de ter filhos, praticamente, e depois que meus filhos cresceram eu continuo mais 20 anos escrevendo para o p\u00fablico infantil, embora os meus filhos j\u00e1 estejam com 14 e com 23 anos.<\/p>\n<p>Mas, eu entendo aqueles escritores que passam s\u00f3 um per\u00edodo da vida escrevendo para as crian\u00e7as. Mas, \u00e9 porque eles n\u00e3o s\u00e3o realmente apaixonados pela literatura infantil. Eles est\u00e3o interessados em conversar com os filhos, em contar hist\u00f3rias para os amigos dos filhos, para os filhos ou eventualmente para os netos. Mas no meu caso eu estou falando para as crian\u00e7as, para a inf\u00e2ncia que est\u00e1 a\u00ed em qualquer leitor.<\/p>\n<p><strong>CA &#8211; Muitas vezes a vida familiar \u00e9 pano de fundo, d\u00e1 a ambienta\u00e7\u00e3o ou \u00e9 o motivo principal de uma trama infanto-juvenil. A sua fam\u00edlia \u00e9 fonte de inspira\u00e7\u00e3o para a sua cria\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Leo Cunha &#8211; <\/strong>Sim. J\u00e1 escrevi v\u00e1rias hist\u00f3rias inspiradas em alguma cena que aconteceu com o meu filho ou com minha filha, ou em algum di\u00e1logo ou situa\u00e7\u00e3o que eu vivi.\u00a0Por exemplo, <em>Ded\u00e9 e os tubar\u00f5es <\/em>(Escarlate, 2013) \u00e9 inspirado numa conversa que eu tive com o meu filho Andr\u00e9.\u00a0 <em>O Castelos, princesas e bab\u00e1s<\/em> (Dimens\u00e3o, 2015) \u00e9 inspirado numa cena que aconteceu com a minha filha Sofia. Mas s\u00e3o v\u00e1rios momentos ou \u00e0s vezes frases que inspiraram hist\u00f3rias, inspiraram poemas.<\/p>\n<p>Por exemplo, o Andr\u00e9, quando tinha quatro anos, uma vez chegou em casa com um daqueles saquinhos de lembrancinhas de festa e eu perguntei \u201co que voc\u00ea gostou mais\u201d e ele falou \u201ceu gostei dessa l\u00edngua de sobra\u201d.\u00a0L\u00edngua de \u201csogra\u201d, claro. Mas, como ele n\u00e3o sabia o nome, falou l\u00edngua de \u201csobra\u201d, que \u00e9 uma palavra comum para a crian\u00e7a, que sabe o que \u00e9 sobrar. Mas, a palavra \u201csogra\u201d ele n\u00e3o sabia o que era.\u00a0Ent\u00e3o, pra ele fazia sentido que aquilo chamasse l\u00edngua de sobra, porque voc\u00ea sopra aquele neg\u00f3cio e ele sobra pra fora da boca.<\/p>\n<p>Eu achei aquilo muito bacana! \u00c9 aquele erro criativo e usei em um poema e como t\u00edtulo de um dos meus livros, que \u00e9 <em>L\u00edngua de sobra e outras brincadeiras po\u00e9ticas <\/em>(Cortez, 2018).<\/p>\n<p>Esse tipo de sacada da crian\u00e7a, um insight que ela tem sem nem perceber que aquilo \u00e9 po\u00e9tico ou o que eu chamei de erro criativo, eu aproveito muito nos meus livros, nos meus poemas.<\/p>\n<p>Os meus filhos continuam sendo inspira\u00e7\u00e3o, assim como outras crian\u00e7as. Mas, os meus pais tamb\u00e9m me inspiram. Eu tenho v\u00e1rios casos e cr\u00f4nicas em que eu cito o meu pai, por exemplo, que \u00e9 uma figura muito divertida. \u00c9 um cara meio fora de \u00f3rbita, que faz algumas coisas muito inusitadas. Ent\u00e3o, eu tenho cr\u00f4nicas sobre ele no livro <em>Manual de desculpas esfarrapadas<\/em> (FTD, 2020), no livro <em>Ningu\u00e9m me entende nessa casa<\/em> (FTD, 2011), em <em>De memes e mem\u00f3rias, cr\u00f4nicas para curtir compartilhar<\/em> (Editora do Brasil, 2021).<\/p>\n<p>Em quase todos os livros de cr\u00f4nicas eu cito algum caso, alguma hist\u00f3ria do meu pai e dos meus av\u00f3s, da minha m\u00e3e, de outras pessoas da fam\u00edlia. Ou seja, como a gente est\u00e1 imerso no ambiente familiar, tudo aquilo ali pode inspirar uma cena, um personagem. Mesmo que voc\u00ea, ao criar, v\u00e1 transformar aquilo em outra coisa. Mas, como ponto de partida \u00e9 uma inspira\u00e7\u00e3o forte.<\/p>\n<p><strong>CA &#8211; <\/strong>A cr\u00f4nica frequentemente serve como porta de entrada para que o jovem passe a se interessar pela literatura e caminhe para outros estilos. Houve uma gera\u00e7\u00e3o que teve na cole\u00e7\u00e3o <em>Para Gostar de Ler <\/em>o atrativo para a leitura. Voc\u00ea acha que poderia haver maior produ\u00e7\u00e3o de cr\u00f4nicas como aquelas do Drummond, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, Fernando Sabino &amp; Cia. que torne o acesso do jovem \u00e0 literatura de cr\u00f4nicas mais prazerosa pra crian\u00e7as e adolescentes?<\/p>\n<p><strong>Leo Cunha &#8211; <\/strong>A cole\u00e7\u00e3o Para Gostar de Ler foi muito importante na minha inf\u00e2ncia. Especialmente aqueles primeiros volumes com os quatro grandes: Drummond, Paulo Mendes, Rubem Braga e Sabino. Depois teve as outras edi\u00e7\u00f5es, com o Carlos Eduardo Novaes, com Louren\u00e7o Diaf\u00e9ria, entre outros grandes cronistas. Eu acho aquela cole\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica.<\/p>\n<p>Hoje em dia, existem alguns autores que que escrevem cr\u00f4nicas para jovens. Eu continuo escrevendo v\u00e1rios livros de cr\u00f4nicas para adolescentes, que geralmente fazem um apanhado de cr\u00f4nicas que eu publiquei em jornais ou nas redes sociais ou que eu escrevi para o livro, pensando nesse p\u00fablico jovem, em que eu uso uma linguagem bastante coloquial, com perguntas, chamando o leitor para o texto.\u00a0Eu acho que usar esse recurso de criar uma intimidade funciona bem na cr\u00f4nica para adolescentes. Cria um clima como se eu estivesse contando a hist\u00f3ria no p\u00e9 do ouvido do leitor. \u00a0Funciona muito bem para adolescentes e eu fa\u00e7o isso muito e tamb\u00e9m tem outros cronistas que fazem isso.<\/p>\n<p>Acabei de lan\u00e7ar um livro em parceria com a escritora Rosana Rios, que \u00e9 uma grande escritora infanto-juvenil, com mais de 100 livros publicados, e esse \u00e9 o primeiro livro de cr\u00f4nicas dela. Nessa parceria, a gente fez o livro <em>O rock manda lembran\u00e7as<\/em> (Elo, 2022) que conta hist\u00f3rias ligadas a shows, discos, programas de r\u00e1dio, festas, v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es envolvendo a m\u00fasica, principalmente o rock. Eu e a Rosana somos roqueiros, gostamos muito de rock. Mas, \u00e9 um livro tamb\u00e9m para leitores que n\u00e3o forem roqueiros. Leitores que tiverem alguma rela\u00e7\u00e3o especial com a m\u00fasica, que gostam de ir a shows ou que querem pedir ao pai para deixar ir ao show ou que gostam de ouvir algum programa, que gostam de algum objeto (ligado \u00e0 m\u00fasica), como um disco ou um CD ou os MP3 da vida. Enfim, todo mundo que tem alguma rela\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima de afeto, de paix\u00e3o com a m\u00fasica, seja com rock, seja com outro g\u00eanero, acho que vai curtir esse livro.<\/p>\n<p><strong>CA &#8211; <\/strong>Voc\u00ea tem uma forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica bastante ecl\u00e9tica. As v\u00e1rias \u00e1reas de conhecimento que voc\u00ea buscou t\u00eam pontos de converg\u00eancia? Como influenciam o seu processo criativo?<\/p>\n<p><strong>Leo Cunha &#8211; <\/strong>Acho que sim. Embora eu tenha uma carreira acad\u00eamica muito dispersa \u2014 que vai para o Jornalismo, para a Publicidade, depois p\u00f3s em Literatura, mestrado em Ci\u00eancias da Computa\u00e7\u00e3o, doutorado em Cinema na Escola de Belas Artes, \u00e9 como se eu estivesse atirando para v\u00e1rios lados, o que de certa forma \u00e9 verdade, \u00e9 um ecletismo muito forte \u2014, tudo tem um caldo comum, que \u00e9 esse interesse por contar hist\u00f3rias, pelas narrativas. Como contar hist\u00f3rias, como criar personagens, como criar situa\u00e7\u00f5es que interessem, que envolvam os leitores, como construir situa\u00e7\u00f5es divertidas, o que vi especialmente no meu doutorado em que eu estudei o humor, a narrativa c\u00f4mica.<\/p>\n<p>Tudo isso, de alguma maneira est\u00e1 interligado.\u00a0Na minha cabe\u00e7a tudo isso est\u00e1 interligado. Est\u00e1 me ajudando a entender melhor a narra\u00e7\u00e3o, a linguagem, o texto po\u00e9tico, o texto narrativo e como isso pode ser mais rico, como isso pode ser entendido de maneira mais profunda e de maneira a me dar ideias pra eu desenvolver os meus textos.<\/p>\n<p><strong>CA &#8211; <\/strong>A literatura infantil, principalmente, tem um conte\u00fado de ilustra\u00e7\u00e3o, que \u00e9 essencial e voc\u00ea j\u00e1 falou em outras entrevistas sobre as parcerias que tem com v\u00e1rios ilustradores. Os ilustradores acabam sendo seus parceiros tamb\u00e9m na autoria, influenciando as hist\u00f3rias, ou \u00e9 voc\u00ea quem diz qual caminho deve ser seguido?<\/p>\n<p><strong>Leo Cunha &#8211; <\/strong>Os livros, infantis, quase todos, s\u00e3o texto e imagem. \u00c9 um di\u00e1logo entre o texto e a imagem, seja uma hist\u00f3ria, seja um poema, seja uma cr\u00f4nica, de alguma maneira, tem uma imagem que vai dialogar com ela e o ideal \u00e9 que essa imagem n\u00e3o repita o que est\u00e1 no texto.\u00a0Pelo contr\u00e1rio. Que ela amplie, que ela crie novas leituras, que ela fa\u00e7a a sua pr\u00f3pria leitura daquele texto. \u00c9 uma leitura privilegiada de um artista visual \u2014 de um ilustrador, de um pintor, de um designer \u2014 e essas coisas dialogam.<\/p>\n<p>Como eu n\u00e3o tenho talento nessa \u00e1rea de ilustra\u00e7\u00e3o, de design, conto sempre com parceiros e tenho muita sorte. J\u00e1 trabalhei com praticamente todos os principais ilustradores da literatura infanto-juvenil brasileira.\u00a0Vou citar alguns: Eliardo Fran\u00e7a, Rui de Oliveira, Roger Melo, Andr\u00e9 Neves, Gra\u00e7a Lima, Marilda Castanha, Nelson Cruz. Enfim s\u00e3o dezenas de ilustradores, muito diferentes entre si, cada um com seu estilo, com a sua marca. Alguns mais divertidos, outros mais po\u00e9ticos, alguns mais figurativos, outros mais estilizados.<\/p>\n<p>Cada um tem o seu jeito de fazer o livro, mas sempre se adequam \u00e0 proposta daquele livro. Como eu disse, eu tive essa sorte de ter muitos parceiros e \u00e9 interessante que, muitas vezes, eu fiz livros em que primeiro veio a imagem, depois o texto, o que \u00e9 coisa rara. S\u00e3o poucos os escritores que trabalham assim.<\/p>\n<p>Com dois ilustradores, principalmente, o Alex Lutkus e o Salmo Dansa, eu fiz v\u00e1rios livros dessa forma. Eles me mandarem uma imagem ou uma ideia visual ou um grupo de imagens e eu criar uma hist\u00f3ria ou um projeto de livro de poemas ou contos a partir daquela imagem. \u00c9 algo coisa que me agrada muito, que \u00e9 bem diferente do mais comum, que \u00e9 o texto vir primeiro. \u00c9 claro que eu fiz dezenas de livros que o texto veio primeiro. Mas, eu acho legal essa proposta de inverter a ordem e o meu texto servir quase como uma ilustra\u00e7\u00e3o da imagem. Como algo que vai ampliar aquela imagem, assim como a imagem faz quando o texto vem primeiro.<\/p>\n<p><strong>CA &#8211; <\/strong>O Kindle (dispositivo eletr\u00f4nico para leitura de livros digitais) \u00e9 um espet\u00e1culo para muitos, mas deixa a desejar para outros, que n\u00e3o abrem m\u00e3o de folhear o livro . Por\u00e9m, como a ilustra\u00e7\u00e3o \u00e9 essencial para o livro infantil, as crian\u00e7as podem ser vistas como as salvadoras do livro impresso?<\/p>\n<p><strong>Leo Cunha &#8211;\u00a0<\/strong>Eu leio muita coisa no Kindle. Mas, \u00e9 pra literatura adulta. Para aquele texto que precisa da imagem, da ilustra\u00e7\u00e3o, da cor, do papel, do folhear, que tem aquela coisa t\u00e1til mesmo, sensorial ali, a tela ainda n\u00e3o substitui. N\u00e3o sei se algum dia vai substituir.<\/p>\n<p>Eu espero que n\u00e3o. Eu, que sou apaixonado pelo por esse prazer t\u00e1til da leitura, acho que isso ainda n\u00e3o vai acontecer.\u00a0Mas, como reposit\u00f3rio, para reunir v\u00e1rios textos, v\u00e1rios livros, o Kindle e outros aparelhos t\u00eam o seu papel.<\/p>\n<p><strong>CA &#8211; <\/strong>O<strong> bom humor \u00e9 algo que \u00e9 claro em voc\u00ea e que est\u00e1 evidenciado na p\u00e1gina <em><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/trocadilhosdequinta\/?locale=pt_BR\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Trocadilhos de Quinta<\/a> <\/em>\u00a0do Facebook&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Leo Cunha &#8211; <\/strong>Desde muito pequeno, eu sou apaixonado pelo humor, pelas com\u00e9dias, pelos humoristas. Seja na televis\u00e3o, seja no cinema, seja no teatro.\u00a0Eu cresci vendo as pe\u00e7as de Maria Clara Machado, que eram muito divertidas. Cresci vendo muitas com\u00e9dias no cinema. Eu adorava.\u00a0At\u00e9 hoje gosto muito. O meu doutorado acabou sendo sobre os her\u00f3is c\u00f4micos, sobre o cinema de humor e a constru\u00e7\u00e3o dos personagens c\u00f4micos. \u00c9 algo que eu sou apaixonado.<\/p>\n<p>Eu tenho a p\u00e1gina Trocadilhos de quinta ao lado do escritor Henrique Rodrigues. A gente criou isso h\u00e1 oito anos. Toda quinta-feira, a gente posta l\u00e1 alguma not\u00edcia, uma imagem curiosa e as pessoas entram e comentam somente com trocadilhos. \u00c0s vezes d\u00e1 30, \u00e0s vezes d\u00e1 50, \u00e0s vezes da 100 coment\u00e1rios numa semana. Tem um grupinho que volta toda semana e \u00e9 muito bacana. A gente se se diverte muito uns aos outros criando trocadilhos a partir daquele mote, daquele estopim da semana.<\/p>\n<p>O humor fant\u00e1stico. Eu sou uma pessoa muito bem humorada. Viver a vida e enxergar a vida de forma mais leve, na medida poss\u00edvel, \u00e9 importante.<\/p>\n<p><strong>CA &#8211; <\/strong>Muitos dos seus livros s\u00e3o indicados para fazer parte dos planos de estudos das escolas. Mas, voc\u00ea j\u00e1 disse em entrevista que n\u00e3o escreve para ensinar, mas para entreter. Por\u00e9m, mesmo assim, acaba que, de alguma forma a leitura ensina. O entretenimento \u00e9 uma ferramenta pedag\u00f3gica importante? Como o ensino se torna mais atrativo quando nele o entretenimento est\u00e1 presente?<\/p>\n<p><strong>Leo Cunha &#8211;\u00a0 <\/strong>Essa \u00e9 uma quest\u00e3o important\u00edssima. Eu parto do princ\u00edpio de que a literatura \u00e9 uma arte que serve para mexer com as pessoas, para divertir, \u00a0para emocionar, para assustar, para provocar. Tudo isso \u00e9 fundamental.\u00a0A arte n\u00e3o deixa a pessoa inc\u00f3lume, seja o espectador, o leitor, o ouvinte. A arte mexe com a gente.<\/p>\n<p>Agora, \u00e9 claro que ao fazer isso a arte tamb\u00e9m passa uma vis\u00e3o de mundo daquele autor, a maneira como ele enxerga os conflitos, as rela\u00e7\u00f5es humanas. Mas, isso n\u00e3o \u00e9 ensinar.<\/p>\n<p>Quando falo que eu n\u00e3o gosto da arte ou de livros que t\u00eam papel did\u00e1tico, que est\u00e3o interessados em ensinar, \u00e9 quando eles p\u00f5em esse ensinamento, a li\u00e7\u00e3o de moral, a li\u00e7\u00e3o de comportamento, de bons modos, seja o que for, acima do car\u00e1ter liter\u00e1rio. O autor quer que todo mundo leia para chegar naquela conclus\u00e3o, para concordar com ele.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 isso que \u00e9 literatura e nem a arte. \u00a0A gente n\u00e3o faz arte para algu\u00e9m concordar com a gente. A gente faz a arte para cada um ler da sua maneira. Uns v\u00e3o rir, achar muito engra\u00e7ado, outros v\u00e3o achar menos engra\u00e7ado. Uns v\u00e3o se emocionar muito, outros v\u00e3o se emocionar menos. Cada um vai relacionar com a sua hist\u00f3ria de vida, com as pessoas que j\u00e1 conviveu, com as emo\u00e7\u00f5es que j\u00e1 passou, com tudo o que j\u00e1 leu.<\/p>\n<p>Uma obra de artes est\u00e1 abrindo janelas, est\u00e1 abrindo o leque, ao contr\u00e1rio de uma obra que tem um objetivo pedag\u00f3gico ou did\u00e1tico e que est\u00e1 querendo que as pessoas aprendam e concordem com uma quest\u00e3o espec\u00edfica. Eu acho que s\u00e3o movimentos quase opostos.<\/p>\n<p><strong>CA &#8211; Voc\u00ea mora no Anchieta desde 2004. Como \u00e9 a sua rela\u00e7\u00e3o com o bairro?<\/strong><\/p>\n<p>Ent\u00e3o, ano que vem vou fazer 20 anos que moro n o bairro. Curiosamente, eu frequentava o Anchieta desde pequeno, porque, quando era crian\u00e7a, eu tinha um grande amigo que morava na Rua Odilon Braga, o Ari Fernando. Hoje ele \u00e9 um grande advogado, professor de Direito na PUC. Eu ia muito \u00e0 casa dele, na Odilon Braga.<\/p>\n<p>Eu gosto muito do bairro. Moro em uma parte bem plana, perto de toda a muvuca da Francisco Deslandes, e acho que \u00e9 um bairro muito gostoso de viver. Primeiro, \u00e9 muito pr\u00e1tico. Tem de tudo aqui ao redor. E \u00e9 muito tranquilo. Eu gosto de circular, gosto muito de andar a p\u00e9, subir e descer as ruas, de ir aos restaurantes, \u00e0s lojas. Praticamente todos os dias eu vou no shopping, na livraria, no supermercado, na farm\u00e1cia e n\u00e3o \u00e9 necessariamente para comprar. \u00c9 para circular mesmo.<\/p>\n<p>Aqui ainda tem um clima de bairro tradicional, interiorano quase, que n\u00e3o \u00e9 aquela loucura da cidade. Eu praticamente n\u00e3o saio muito daqui, a n\u00e3o ser para viajar. Eu viajo muito a trabalho. Mas meus pais moram tamb\u00e9m a dois quarteir\u00f5es. Ent\u00e3o, se dependesse de mim e eu ficava por aqui. Gosto muito de viver e de conviver no Anchieta.<\/p>\n<p><strong>CA &#8211; De alguma forma, a regi\u00e3o interfere na sua cria\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Talvez a tranquilidade me ajude a escrever, a ter o meu momento de introspec\u00e7\u00e3o, de concentra\u00e7\u00e3o.\u00a0Como assunto, eu n\u00e3o lembro de ter escrito algo de espec\u00edfico sobre o bairro. Mas, alguma cena que aconteceu na fila do banco, no supermercado, com certeza eu j\u00e1 escrevi sobre isso em cr\u00f4nicas. J\u00e1 escrevi cr\u00f4nicas que aconteceram nesses ambientes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Morador do Anchieta desde de 2004, o escritor Leo Cunha est\u00e1 completando 30 anos de dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 literatura infanto-juvenil. 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