A Páscoa Cristã, a Pessach, ovos e coelhos: quais ligações existem entre essas tradições?

De diferentes formas, a Páscoa é um dia especial em vários sentidos. Para os cristãos, é o momento de celebrar a ressurreição de Cristo. Para os judeus, é dia de comemorar a libertação do povo hebreu da escravidão no Egito. Independente da religião, para a criançada e para muitos adultos, por sua vez, é a oportunidade para ganhar e para presentear as pessoas queridas com ovos de chocolate que, misteriosamente, são gerados por um coelho.

Mas, qual as relações existentes entre essas tradições? O Comunidade Ativa foi buscar algumas respostas para essa questão.

A ressurreição de Jesus celebrada na Páscoa, aqui representada na pintura a óleo de Paolo Varonese, é a comemoração mais importante da tradição cristã (Imagem: Reprodução/Wikimedia)
A primeira origem da Páscoa Judaica

A palavra “Pessach”, que denomina a Páscoa dos judeus, em hebraico, significa “passar além” e faz referência à Festa da Libertação, que celebra a fuga do povo judeu do Egito. Na tradição judaica, portanto, esse “passar além” seria passar da condição da escravidão para a liberdade.

Porém, estudos da Bíblia que buscam uma conotação histórica indicam que os festejos que culminaram na Pessach seriam anteriores à liderança de Moisés que levou os judeus à libertação. Naquele tempo pré-mosaico, com a intenção de pedir a proteção divina para as famílias e para os próprios rebanhos, ainda nômades, os pastores sacrificavam cordeiros dos quais retiravam o sangue que era utilizando na unção da entrada das cabanas onde viviam. A carne era assada e servida em um grande baquete para família.

Tirando a parte do sangue, essa ideia dos banquetes em família durante a Páscoa continua bem atual, não é mesmo?

Bem, com o passar do tempo, a partir do momento em que os pastores foram se fixando na terra e que a agricultura também passou a fazer parte da rotina das famílias, àquela tradição nômade foram integradas outras festividades. A união das famílias continuou presente, mas, no lugar do pedido de proteção a Deus, o festejo teria passado a celebrar a fuga do Egito.

O calendário lunar e a celebração da Páscoa Judaica

Diferente da Páscoa cristã, a Páscoa Judaica não acontece em um único dia. Na verdade, a festividade se alonga por quase nove dias, sendo iniciada no início da noite do 163º dia antes do primeiro dia do ano judaico. Esse dia específico ocorre na primeira lua cheia após o equinócio de primavera do hemisfério norte — ou no mesmo dia do equinócio, se houver coincidência de datas —, que aqui no hemisfério sul corresponde ao equinócio de outono.

Junto a outros alimentos, na Mesa da Seder, o ovo cozido figura ao lado do Matzá, um espécie de pão sem fermento que é um dos principais componentes da Pessach (Foto: Freepik)

De fato, para nós que vivemos sob as regras do Calendário Gregoriano, que é baseado nos ciclos diários do Sol, essas contas podem parecer bem confusas. Mas, para quem está habituado com o Calendário Judaico, que é baseado na evolução da Lua, deve ser mais tranquilo. De qualquer foram, isso explica porque a Páscoa dos judeus — e também a dos cristãos, como veremos a seguir — tem datas móveis com relação ao nosso calendário.

Nos dias de hoje, o ritual da Pessach inclui refeições especiais, cânticos e orações. Na primeira e, às vezes, na segunda noite da celebração, os judeus realizam a sêder, um refeição em família. Nesses dias, como nos demais,  não é permitido comer alimentos fermentados e são consumidos pratos específicos, o que permanece até o nono dia da celebração.

Mas, qual a conexão da Pessach com a Páscoa Cristã?

Há quem defenda que o martírio, a morte e ressurreição de Jesus não teria acontecido durante a Pessach, mas durante a Festa das Primícias, a atual Pentecostes, que ocorre 50 dias após a Páscoa. Porém, controvérsias à parte, como é mais aceito na tradição cristã, foi durante a Páscoa Judaica que Jesus assumiu a função do cordeiro que era sacrificado na celebração original do povo hebreu, oferecendo o próprio sangue como forma de expiação pelos pecados do povo. Após esse ato de amor, a ressurreição teria ocorrido no final das festas pela libertação do povo do Egito.

Isso levanta um fato curioso. Originalmente, pode ser que naquele ano da crucificação de Jesus a Páscoa não tenha necessariamente caído em um domingo.

Até o século 4, a celebração cristã manteve a coincidência com o calendário judaico. Ou seja, a ressurreição de Jesus era sempre lembrada no encerramento da Pessach. Porém, em 325, por iniciativa do imperador Constantino Magno, a Igreja Católica convencionou fixar a data sempre no primeiro domingo após àquela lua cheia do equinócio de primavera, no norte, ou de outono, no sul, que marca o início da celebração judaica.

Desta forma, pretendia-se que a Páscoa cristã fosse desconectada da Pessach. Porém, como a Lua continuou definindo a data de celebração da festividade dos cristãos, a ligação permaneceu.

Então, a Pessach e a Páscoa Cristã nunca coincidem?

Coincidem sim. Esse ano, por exemplo, a Pessach foi iniciada no dia 27, o sábado anterior ao Domingo de Ramos, e será encerrada justamente no dia 4, no Domingo da Páscoa Cristã.

Uma curiosidade sobre o Carnaval

De passagem, é interessante lembrar que as folias de Carnaval também têm as datas condicionadas pela Páscoa e, portanto, pela Lua. Afinal, a folia de momo ocorre nos quatro dias que antecedem a Quarta-feira de Cinzas, que sempre cai 46 dias antes do Domingo de Páscoa.

E no meio disso tudo, o que nasceu primeiro: o ovo ou a Páscoa?

Essa é uma história bem longa, mas, vamos tentar encurtá-la. Pela perspectiva cristã, o ovo de Páscoa teria surgido como uma representação do reaparecimento de Jesus, saindo da tumba após a ressurreição. Por sua vez, há quem diga que, na Idade Média, era proibido comer ovos durante a Quaresma. Então, como eles se tornavam um alimento especial, eram pintados e guardados para serem comidos com pompa e circunstância no Domingo de Páscoa.

Porém, o monsenhor André Sampaio Oliveira, doutor em Direito Canônico, conta que a tradição de usar ovos em celebrações antecede o cristianismo. “Muitos séculos antes do nascimento de Cristo, a troca de ovos no equinócio da primavera, comemorado no dia 21 de março no hemisfério Norte, era um costume que comemorava o fim do inverno. Quando a Páscoa cristã começou a ser celebrada, o rito pagão de festejar a primavera foi integrado à Semana Santa. Os cristãos, então, passaram a ver no ovo um símbolo da ressurreição de Jesus”, ele explica.

O pesquisador Evaristo de Miranda explicou que, pelo mundo, existem diferentes formas de utilizar os ovos na celebração pascal. “Na Alemanha, os ovos coloridos são pendurados nos galhos das árvores, como se fossem bolas de Natal. Na Rússia, são colocados nos túmulos como homenagem aos que já se foram. Na Itália, as mesas da ceia pascal são decoradas com ovos coloridos”, ele diz.

No século 19, os Ovos Fabergé foram especialmente criados para a família imperial russa (Foto: Fabergé)

Há ainda os famosos e caríssimos Ovos Fabergé, verdadeiras joias encomendadas no século 19 pelos czares russos ao joalheiro Peter Carl Fabergé. Há também os ovos de chocolate, tão cobiçados hoje em dia, cuja ideia teria surgido no século 19 da criatividade de confeiteiros franceses que resolveram esvaziar ovos de galinha e preencher as cascas com chocolate.

Ah! E na Pessach há também o Betsá, um ovo cozido que é consumido como sinal de luto pela destruição do Templo de Jerusalém.

Ou seja, não faltam justificativas para a presença dos ovos nas celebrações pascais.

E o coelho com isso?

Para o historiador Jefferson Ramalho, pela ponto de vista, não há como marcar com precisão as origens das tradições do coelho e dos ovos. “No máximo, é possível saber que não há uma única versão, mas diversas, todas válidas, narradas pelos mais diferentes povos e culturas”, explica.

Eostre, a deusa da fertilidade saxônica reproduzida na ilustração de Johannes Gehrts, de 1884, era associada a uma lebre e a ovos (Imagem: Reprodução/Wikimedia)

Em uma das versões apresentadas, a ideia de um coelho que bota ovos coloridos teria surgido na Alemanha, chegando aos Estados Unidos em 1700 pelas mãos de imigrantes que se estabeleceram na Pensilvânia. Mas, essa figuração do coelho seria bem mais antiga.

A tradição dos alemães teria surgido da mitologia saxônica, que tem Eostre — também conhecida como Ostare, Ostara, Ostern, Eostra, Eostur, Austron e Aysos em outras culturas — como a deusa da fertilidade, que é representada por uma lebre ou por um ovo, o que, nos dois casos, faz muito sentido, quando o assunto é fertilidade. Talvez seja por isso que a palavra “easter”, que significa “páscoa” em inglês tenha tanta semelhança com o nome da deusa.

Conta a lenda que, querendo ajudar a um pássaro que encontrou ferido, Eostre o transformou em uma lebre. Porém, como a transformação não ocorreu por completo, o bicho continuou botando ovos. Mesmo assim, ele ficou grato e resolveu decorar alguns ovos para presentear a salvadora. Feliz da vida com a criatividade do presente, a deusa resolveu compartilhá-lo com as crianças, o que, felizmente, se repete até hoje.

Portanto, seja qual for a tradição, a Páscoa é um motivo de alegria pela celebração da vida. Então, Feliz Páscoa!
 


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