Gerson Pianetti, especialista na análise de medicamentos, fala sobre a ivermectina e cloroquina no tratamento da Covid-19

Ainda que tenha a eficácia sistematicamente negada em várias frentes científicas, o chamado “kit Covid” continua gerando argumentações favoráveis ao uso de medicamentos como a ivermectina e a cloroquina na prevenção e no tratamento da Covid-19, o que ocorre tanto no meio médico quanto entre a população em geral. Para esclarecer o assunto, o programa Saúde com Ciência, da Faculdade de Medicina da UFMG, entre os dias 29 de março e 2 de abril, fez uma série de entrevistas com o professor Gerson Pianetti, que é titular da Faculdade de Farmácia daquela universidade e atua na análise de fármacos e de medicamentos.

Confira a seguir um resumo do que Pianetti disse.

Ivermectina serve ao tratamento de verminoses (Foto: Vitamedic/Divulgação)
A origem da indicação da ivermectina

Como consequência da busca por medicamentos já disponíveis no mercado e que pudessem apresentar eficácia no combate à Covid-19, um estudo realizado na Austrália no ano passado e publicado na revista Sciense Direct observou que, de fato, ensaios laboratoriais in vitro detectaram que a ivermectina inibia a ação do coronavírus.  Entretanto, na entrevista, Pianetti destacou que resultados obtidos em ensaios laboratoriais, necessariamente, não se repetem quando o experimento é realizado com seres vivos. “Aquilo que é feito in vitro somente é publicado para te dar um norte para saber se vale a pena fazer in vivo ou não”, disse o professor.

Segundo Pianetti, a dose do medicamento utilizado nos ensaios de laboratório foi 18 vezes maior do aquela é que concebível para uso em seres humanos. Destacando uma máxima farmacêutica proferida físico alemão Paracelso, que disse que a diferença entre o remédio e o veneno está na dosagem utilizada, o professor alertou para os riscos de uso excessivo de um fármaco. “Imagina o que acontece no seu organismo se você tomar uma dose. Agora imagina se você tomar uma superdose”, ressaltou.

Sem efeito de prevenção ou de cura, mas com efeito sobre o organismo

Fazendo referência a outro estudo mais recente publicado na revista Revista da Associação Médica Americana (JAMA), Pianetti apontou evidências de que o uso ou não da ivermectina não fez diferença no tratamento ou na prevenção da Covid-19. “Mas não nos esqueçamos de que, a partir do momento que um medicamento entra no seu organismo, ele afeta o circuito interno que, queira ou não queira, vai passar pelo fígado”, disse.

Nesse aspecto, o professor ressaltou que, em vez de provocar efeitos benéficos no combate à Covid-19, ao contrário, o uso indevido do medicamento tende a ser maléfico, uma vez que já foi associado a casos de hepatite medicamentosa.

E a cloroquina?

Também presentes no tal “kit Covid”, a cloroquina e a hidroxicloroquina são medicamentos indicados para tratar doenças como malária e artrite reumática. Há meses, o uso dessas substâncias no tratamento da Covid-19 vem sendo criticado por cientistas e por entidades brasileiras e internacionais, incluindo a  Organização Mundial da Saúde (OMS).

Cloroquina e hidroxicloroquina são indicados para o tratamento de doenças como malária e artrite reumática (Foto: EMS/Divulgação)

Contrariando a insistente as argumentações de alguns médicos e de muitos leigos, Pianetti apontou os resultados de um estudo sobre a eficácia desses medicamentos no tratamento da Covid-19. De acordo com o estudo, o grupo de pacientes que utilizou as substâncias obteve melhora idêntica à daquele que não usou o remédio. “Então, se não teve uma diferença estaticamente significativa, você descarta, porque não se toma medicação à toa, sendo que o medicamento vai fazer um efeito negativo em outra região do organismo”, disse o professor.

Alerta

Além de descartar qualquer benefício no combate à Covid-19, Gerson Pianetti alertou para os riscos existentes no uso da ivermectina de forma inadequada, principalmente quando ocorre em dosagens excessivas, o que pode provocar sérios danos ao fígado. Se você vai tomar por conta de um problema de verme, toma dois ou três comprimidos e acabou. Agora esse pessoal que está tomando um por dia, durante 15, 20 dias, não sabe o que está fazendo com fígado dele daqui para frente, porque vai ter comprometimento”, frisou o professor.

Segundo Pianetti, o mesmo raciociocínio se aplica à cloroquina e à hidroxicloroquina, que também podem levar a sérios comprometimentos hepáticos e causar hepatite medicamentosa, se utilizados de formas que não sejam aquelas prescritas na bula. “Não existe essa de que se bem não faz, mal também não faz, porque vai causar danos sim”, concluiu.