Da pane do WhatsApp vale tirar a lição de improvisação que vem do jazz

A falha desta segunda-feira, 4, que, por cerca de seis horas, deixou o WhatsApp, Instagram e Facebook inacessíveis para grande parte dos usuários no mundo todo, evidenciou ainda mais a dependência cada vez maior que temos da tecnologia. Trata-se de uma constatação que, no íntimo, reconhecemos, mas que, talvez, não saibamos dimensionar na medida correta, até que o recurso tecnológico nos falte e nos deixe sem atitude.

Com a interrupção do WhatsApp, por exemplo, não foram poucas os relatos de empresas e de profissionais que, por não contarem com aquele meio de contato, deixaram de realizar negócios e reuniões importantes. Amigos e familiares passaram o dia sem se falar e o caso mais inusitado talvez tenha sido o da advogada Tatiana Amaral.

Diabética, Tatiana contou ao G1 que, durante a pane das redes sociais, se sentiu mal e, pelo aplicativo de mensagem, enviou um pedido de ajuda ao pai, que estava em outro cômodo da casa onde ambos moram. A advogada percebeu que a mensagem não estava sendo transmitida, mas se esqueceu de que poderia telefonar ou simplesmente gritar por socorro e, em função de um pico de glicose, acabou desmaiando.

Não sois máquinas
Em Tempos Modernos (1936), Charles Chaplin já criticava a relação humana com a tecnologia. Mais tarde, em O Grande Ditador (1940), ele retomou o tema. A frase Não sois Máquinas! Homens é que sois! se tornou um alerta, que foi eternizado no discurso proferido no final do filme (Imagem: Reprodução/Charlie Chaplin Film Corporation)

Situações assim ressaltam o quanto grande parte das pessoas tem vivido no automático, replicando o comportamento das máquinas que, por sua vez, em alguma medida, estão substituindo determinadas posições humanas. Diante desse fenômeno, o professor Rich Pellegrin, que leciona música na Universidade da Flórida, nos Estados Unidos, fez uma reflexão no site The Conversation  sobre a evolução da Inteligência Artificial (IA).

Pellegrin partiu do questionamento sobre quais atividades humanas sobreviverão ao avanço da tecnologia e em que medida as máquinas serão capazes de reproduzir uma de nossas características mais marcantes, que é a da improvisação.

Gênio do jazz

O professor destaca que, em sua autobiografia, o grande astro do jazz mundial Miles Davis reclama do quanto os músicos clássicos se tornaram robotizados. Também com formação clássica, Davis já percebia que, em busca da perfeição, que os leva a reproduzir com precisão as partituras que executam, os músicos foram se tornando mecanizados com o passar do tempo.

Enquanto isso, Pellegrin observa que o desenvolvimento tecnológico caminha na direção contrária, aprimorando a capacidade de as máquinas imitarem a improvisação humana. Por natureza, os mecanismos criados pelo homem são extremamente eficientes nas atividades repetitivas, como as que ocorrem na produção de um automóvel. Por outro lado, por serem mais fluidas, caóticas e reativas, as atividades menos baseadas em regras, que são tipicamente humanas, têm maior presença da improvisação.

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Algoritmos

Contudo, Pellegrin observa que, em ambientes como as bolsas de valores, onde, no passado, os operadores reagiam de maneira improvisada às flutuações do mercado, hoje, as negociações são conduzidas com base em algoritmos, que automatizam grande parte dos processos e, por consequência, mecanizam as atitudes das pessoas. De modo semelhante, a presença de motoristas em veículos caminha para ser substituída pela direção autônoma, tão logo seja possível reproduzir a improvisação necessária para lidar com situações imprevistas — como as que são geradas por pedestres, por exemplo. Ao mesmo tempo, as interações sociais ao vivo estão sendo substituídas pela pelas redes sociais.

“O computador da IBM, o Deep Blue, derrotou o campeão mundial de xadrez Garry Kasparov em 1997, mas levou mais 20 anos para a IA derrotar os melhores jogadores do jogo de tabuleiro Go. Isso porque o Go tem um número muito maior de opções de movimentos possíveis a qualquer momento e virtualmente nenhuma regra específica, requerendo mais improvisação. No entanto, os humanos eventualmente se tornaram páreo para a máquina. Em 2019, o ex-campeão mundial Lee Sedol se aposentou do jogo profissional , citando a ascensão da IA ​​como o motivo”, destaca Pellegrin.

A necessidade da imperfeição

Considerando a rápida evolução da IA, Pellegrin questiona se, em algum dia, ela será capaz de agir com verdadeira improvisação. “As máquinas replicam objetos facilmente, mas a improvisação é um processo e não é apenas uma composição instantânea. Em vez disso, ela tem uma qualidade humana indescritível que é resultante da tensão entre habilidade e espontaneidade. As máquinas sempre serão altamente habilidosas. Mas, será que algum dia eles serão capazes de parar de calcular e mudar para um modo de criação intuitivo, como faz um músico de jazz em um show?”, duvida professor.

Tendo em vista a perspectiva de uma máquina não conseguir repetir a improvisação humana — e de as pessoas tenderem a adotar o automatismo das máquinas —, Pellegrin destaca que Milles Davis era a antítese de tudo isso. “No jazz, Davis foi capaz de transformar suas lutas técnicas com o trompete em um som icônico e assustador. Suas notas erradas, notas perdidas e notas quebradas tornaram-se chiados, sussurros e suspiros que expressam a condição humana. Ele não apenas possuía esses erros, mas também os cortejava ativamente com uma abordagem arriscada, que priorizava a cor sobre a linha e a expressão sobre a precisão. Sua arte era a imperfeição, e é aí que reside o paradoxo do jazz”, diz.

Portanto, considerando que não somos máquinas, o que nos dá a condição natural da improvisação, talvez seja a hora de nos tornarmos menos dependentes da tecnologia — ou pelo menos mais atentos sobre como podemos agir quando ela nos faltar, como aconteceu com a pane das redes sociais.

Afinal, é possível que em nossa imperfeição esteja a salvação da essência da humanidade.

 


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