Com antecedência, prepare o seu pet para lidar com as queimas de fogos

Para comemorar a vitória do próprio time ou a derrota do adversário, em dia santo, em aniversários, na passagem de ano, como a que já se aproxima, e em tantas outras datas, há quem não dispense uma queima de fogos, o que cria um grande problema. Afinal, o mesmo foguetório que significa alegria para alguns representa susto e aflição para quem não está preparado para a surpresa e para quem não lida bem com ruídos muito altos.

No grupo dos viventes que sofrem bastante com as explosões estão os bebês, os idosos, pessoas que apresentam maior sensibilidade a sons intensos e, claro, os animais. No caso dos pets, muitos entram em verdadeiro desespero por causa dos estampidos, o que pode provocar desde uma agitação intensa e tentativas de fuga, que muitos conseguem realizar, até a situações de choque e de morte.

Para entender como é possível evitar que as festividades sejam traumáticas para cães e para gatos,  o Comunidade Ativa conversou com a consultora em comportamento animal Letícia Orlandi, que passou dicas muita interessantes.

Alto, imprevisível e incompreensível

A audição humana percebe sons que vão de 64 Hertz (Hz) a 23 quilohertz (1 kHz, equivalente a 1000 vezes um Hz). O ouvido canino, por sua vez, percebe frequências sonoras entre 67 Hz e 45 kHz. Já os gatos ouvem em uma faixa de frequência ainda mais ampla, que vai de 45 Hz a 64 kHz.

Ou seja, a audição canina alcança sons com praticamente o dobro da frequência mais alta que nós ouvimos,

A audição canina ouve sons em frequências duas vezes mais altas que o máximo que o ouvido humano é capaz de captar. No caso dos gatos, a sensibilidade auditiva atinge o triplo do máximo que o homem é capaz de ouvir (Imagem: Freepik)

enquanto nos gatos esta sensibilidade quase triplica em comparação com a dos ouvidos humanos. Portanto, se um foguetório já é algo barulhento para os nossos ouvidos, imagine para os cães e para os gatos que têm uma capacidade auditiva muito superior à humana.

Porém, de acordo com Letícia Orlandi, não é só o barulho das explosões que causam sofrimento aos peludos. “A audição de cães e de gatos é muito mais apurada do que a nossa, o que, por si só, justifica o incômodo deles com a explosão de fogos. Só que, além de muito alto, o barulho dos fogos é imprevisível e incompreensível para eles, o que contribui para a sensação de insegurança”, explica a consultora.

Adaptação

Felizmente, segundo Letícia, há uma série de medidas que podem ser adotadas para que o sofrimento dos pets durante uma queima de fogos seja evitado ou pelo menos minimizado e tudo começa pelo conhecimento da linguagem corporal do bichinho. “Recentemente, no dia de Nossa Senhora Aparecida, tivemos um foguetório em menor escala, como acontece em alguns dias de jogos de futebol. Em ocasiões assim, é interessante os tutores de cães e de gatos observarem as reações que eles apresentam. Eles se escondem? Colocam as orelhas para trás? Bocejam e lambem os lábios fora do contexto em que isso normalmente aconteceria? Buscam colo? No caso dos gatos, ficam com as pupilas dilatadas? Estes são sinais que podem ser discutidos com um consultor da área de comportamento animal ou com um veterinário de confiança. A partir deles é possível planejar algumas ações”, recomenda.

Durante o treinamento, observe o comportamento do seu pet diante das variações de sons (Imagem: Freepik)

De acordo com Letícia, o ideal é preparar os pets para o convívio com barulhos variados, inclusive com o dos fogos, quando eles ainda são filhotes. Essa preparação pode ser realizada a partir de gravações, como as da playlist apresentada pela consultora no final da matéria. “O período mais sensível a esse processo varia de acordo com as espécies, sendo mais intenso em gatinhos de até nove semanas e cães de até 14 semanas, aproximadamente. De forma um pouco menos intensa, essa fase de habituação aos estímulos pode se estender até os quatro meses para os gatinhos e até os seis meses para os cães”, explica.

Letícia ressalta que a apresentação dos sons deve ser feita de forma gradual e, tendo em mente que a audição dos pets é aguçada, partindo de um volume bem baixo. “Na medida em que aumentar o volume, observe se eles mexem as orelhinhas, levantam cabeça, olham na direção do som, sem se alarmar. Observe se eles voltam a fazer o que estavam fazendo antes e ofereça petiscos. Deixe nesse volume por um tempo, depois aumente mais um pouquinho, até que ele mostre algum sinal de atenção novamente, e vá fazendo progressos graduais. A associação positiva com alimentos, brinquedos e carinho deve começar nessa fase, construindo um caminho de tolerância, tranquilidade e bem-estar para o animalzinho em relação a esses barulhos desagradáveis que não conseguimos evitar”, explica.

No caso dos animais adultos e já sensíveis a determinados sons, Letícia diz que, ainda que mais demorado, é possível realizar um processo de dessensibilização. “Com bastante cuidado e muito respeito aos limites de cada indivíduo, ao longo do tempo a experiência vai se tornando menos assustadora. No entanto, tanto no caso dos filhotes quanto dos adultos, o acompanhamento profissional é fundamental. Se o processo for mais rápido ou intenso do que o indicado, pode ocorrer uma sensibilização ou trauma ainda maiores”, alerta.

Letícia destaca que, como o processo de adaptação aos sons leva tempo, não poderia ser realizado até o final do ano, por exemplo, quando os fogos de Réveillon sempre acontecem. Porém, felizmente, existem outras providências que podem ser adotadas e que diminuem os riscos que os pets correm nos dias de foguetório.

Medidas de proteção

Letícia Orlandi preparou uma lista das providências que você pode adotar para proteger o seu pet em dias de foguetório.

Confira!

  • Como as fugas são muito comuns nos dias em que ocorrem queimas de fogos, reforce ou providencie a identificação do animal na coleira e por meio de microchip, facilitando assim a recuperação.
  • Para os cães, programe uma rotina com passeios em horários mais distantes do momento da queima.
  • Crie um ambiente seguro e confortável, com recursos básicos — água, comida, banheirinho — e mantenha janelas e cortinas fechadas. Neste ambiente, que deve se tornar uma espécie de santuário para o bichinho, toque músicas adequadas para a espécie — no caso dos cães, além das trilhas sonoras específicas, como Relax my dog, e da música clássica, há estudos que indicam o reggae como ótima opção para acalmar; para os gatos, playlists Relax my cat e David Teie.  Uma opção à música é manter a televisão ou o rádio ligado, em um volume confortável.

    Estudos indicam que os cães têm um gosto especial pelo reggae (Imagens: Freepik)
  • No santuário, com caixas de papelão ou caminhas cobertas com colchas ou lençóis, prepare abrigos que sirvam de tocas para o animal. Coloque ali peças de roupa da pessoa com quem o animal tem mais vínculo. Prepare esconderijos variados — inclusive em locais elevados, para os gatos.
  • Prepare atividades atraentes, com brinquedos recheáveis, comedouros interativos e tapetes ou caixas para caçar petiscos, cascos, chifres e outros materiais de roer, por exemplo, que possam ser oferecidos logo depois que os fogos começarem — evite oferecer antes, considerando que a associação não será positiva.
Rotina

Letícia recomenda que as atividades, as músicas e os locais seguros comecem a fazer parte da rotina do animal desde já, para que sejam, de fato, uma experiência agradável consolidada. “Ele já vai entender que ali existe um porto seguro. Tentar obrigá-lo a desfrutar desse espaço e das atividades de repente, apenas na hora dos fogos, quando ele já estiver com medo, provavelmente não vai funcionar”, considera.

De acordo com a Letícia, se o animal fica incomodado com outros moradores da casa, com outros animais ou quando surgem estranhos, é interessante manter o local seguro livre dessas influências. “O santuário deve ser em um cômodo sem acesso para esses agentes estressores. Mas, é importante que o pet tenha a companhia da pessoa com quem mais se relaciona positivamente”, diz.

Caso busque colo e carinho na hora dos fogos, Letícia aconselha que o animal seja acolhido de forma tranquila. Se ele quiser se esconder, deixe que se esconda. “Não dê bronca e não force-o a enfrentar a situação aterrorizante, porque isso vai potencializar o trauma e dificultar que esse medo possa ser amenizado no futuro”, observa.

O ideal é que você fique com seu bichinho quando ocorrem os foguetórios. “Se optar por sair, além de criar um ambiente seguro, contrate um profissional, de preferência alguém que ele já conheça e confie”, recomenda.

Feromônios

Letícia considera que o uso de feromônios sintéticos — Feliway Classic no caso dos gatos e Adaptil para os cães —

Existem feromônios para cães e para gatos que ajudam a acalmar (Imagem: Feliway/Divulgação)

também pode contribuir para que os bichinhos fiquem mais confortáveis. “Eles podem ser usados simultaneamente e devem ser plugados na tomada, preferencialmente, na semana anterior ao início dos fogos. Além disso, existem suplementos e medicamentos seguros que podem ser indicados em alguns casos, especialmente nos mais extremos”, diz.

Segundo Letícia, estas indicações devem ser feitas por um veterinário de confiança — e nunca por conta própria — em uma consulta que deve ser marcada com a maior antecedência possível. Assim, além de evitar os problemas de agenda que ocorrem quando as festividades se aproximam, o profissional poderá fazer uma boa avaliação e a melhor indicação para o pet.

Telling Touch funciona?

Muito propagadas pela internet, existem orientações que mostram o uso de faixas amarradas no corpo do animal que dariam a ele uma sensação de conforto. Conhecida como “truque do pano”, essa técnica tem o nome de Tellington Touch. No entanto, segundo Letícia, quando a amarração não é executada adequadamente, pode gerar ainda mais desconforto.

“Com a mesma intenção, já existem no mercado roupinhas e coletes, conhecidos como thundershirts. Embora muitos tutores relatem que a roupa realmente acalma o animal, pesquisadores alertam que esta pode ser apenas uma impressão, fruto da leitura errada da linguagem corporal. O cão pode estar paralisado pelo uso da vestimenta, especialmente se não tiver sido apresentado a ela antes, e isso pode ser confundido com calma. É muito importante discutir essas possibilidades com profissionais qualificados, porque elas podem até ajudar em alguns casos específicos. Mas, não são soluções mágicas e nem dispensam as outras medidas”, explica Letícia.

Antecedência

Como foi visto, os animais aprendem a lidar com o barulho após um tempo considerável de treinamento. Portanto, não haveria prazo suficiente para treinar o seu bichinho para enfrentar os tormentos das queimas de fogos do Réveillon, por exemplo. Por outro lado, como ocorrem foguetórios o ano, quanto antes o seu pet passar pelo processo de adaptação melhor será.

Com relação as medidas protetivas, considerando que exigem algumas providências que precisam ser tomadas, seria conveniente planejá-las agora, tendo em vista as festas de final de ano. Se você pretende sair no Réveillon, por exemplo, é aconselhável criar a oportunidade para que, desde já, o seu pet comece a conviver com alguém que esteja preparado para dar a atenção que ele merece no momento da queima de fogos.

Afinal, o seu bichinho conta só com você para protegê-lo e só você pode fazer com que ele se sinta seguro, mesmo se você não estiver por perto.

 

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