É possível evitar que a máscara protetora se torne uma vilã!

Como se não bastassem as mais de 2 bilhões de toneladas de resíduos sólidos gerados anualmente apenas pelas cidades, com a pandemia da Covid-19 a máscara surge como uma modalidade de poluição importante, que aumenta ainda mais a pressão humana sobre o planeta. De fato, o equipamento é indispensável para evitar a disseminação do novo coronavírus. Porém, o uso das máscaras descartáveis e o descaso no descarte pode se tornar mais um grave problema ambiental.

Mais microplástico no planeta

Não resta dúvida sobre o  valor das máscaras na tentativa de conter o avanço da Covid-19. Porém, o grande problema está no fato de muitas delas serem feitas de plástico e projetadas para serem utilizadas uma única vez. Só para termos uma ideia do volume de máscaras descartáveis, a China, líder mundial no setor, sozinha produziu 116 milhões de unidades em fevereiro passado. Com isso, milhares de toneladas extras de resíduos estão indo parar nos aterros sanitários ou, o que é pior, no solo e nos cursos d’água, quando recebem descarte adequado.

As partículas de microplástico são aquelas que têm menos de 5 milímetros no maior comprimento (Imagem: Freepik)

Uma estimativa do professor Dan Osborn, da University College London, da Inglaterra, indica que se a população do Reino Unido usasse uma máscara descartável por dia durante um ano seriam geradas 66 mil toneladas de lixo contaminado e 57 mil toneladas de embalagens plásticas, o que é alarmante. Há evidências que sugerem  as máscaras como importante fonte de microplástico — partículas de plástico com até 5 milímetros — que é extremamente prejudicial ao meio ambiente.

Mas, o que poderia ser feito para evitar que, de heroína, a máscara comece a figurar como vilã?

Design circular

Para a professora Mayuri Wijayasundara, da Deakin University, da Austrália, que é especializada em Economia Circular, adotar o “design circular” — um design que permita utilizar insumos que causam menor impacto ao meio ambiente — seria uma forma de solucionar o problema. “Esse pensamento busca reduzir o desperdício e a poluição por meio do design do produto, manter os produtos e materiais em uso e regenerar os sistemas naturais”, explica Mayuri.

Devemos ter em mente que existe uma grande variedade de máscaras faciais, que são produzidas com diferentes materiais e para diferentes finalidades. Algumas são duráveis e confeccionadas com tecido natural, portanto, biodegradável, enquanto outras são descartáveis e produzidas com uma combinação que inclui metais e plástico.

A N-95, por exemplo, projetada para barrar cerca de 95% das partículas que ficam suspensas no ar, é descartável e inclui o filtro, proteção de nariz e diafragma da válvula, que são confeccionados com poliisopreno, um tipo de espuma. Há ainda outras máscaras descartáveis que são produzidos a partir de combinações de tecidos naturais e sintéticos, que incluem poliéster ou polipropileno.

Descartável, uma N-95, por exemplo, inclui inúmeros materiais que são potencialmente prejudiciais ao meio ambiente se não forem reciclados (Imagem: Freepik)

Um pesquisa sugere que  máscaras de pano são menos eficazes na filtragem de partículas do que as máscaras médicas, mas elas podem oferecer boa proteção se estiverem bem encaixadas à face. Ou seja, mesmo confeccionadas com tecido natural, máscaras que forem produzidas a partir de um design mais eficiente podem garantir boa proteção e diminuir o consumo de máscaras descartáveis.

Projetando para um ambiente mais saudável

“Qualquer tentativa de redesenhar máscaras faciais deve garantir que elas ofereçam proteção adequada ao usuário. Quando as máscaras são usadas em um ambiente médico, as alterações de design também devem atender aos padrões oficiais, como eficiência da barreira, capacidade respiratória e resistência ao fogo”, diz Mayuri. Tendo em mente esta premissa, seria possível projetar máscaras prevendo que elas causem menores danos ambientais.

Quanto maior o uso de materiais reutilizáveis e biodegradáveis na produção de máscaras, por exemplo, torna o equipamento mais sustentável pelo ponto de vista ambiental. O mesmo pode ser dito para a preferência do público por máscaras que possam ser reutilizadas, em substituição às descartáveis. “Uma avaliação do ciclo de vida realizada no Reino Unido descobriu que máscaras que poderiam ser lavadas e reutilizadas são a melhor opção para o meio ambiente. Máscaras reutilizáveis ​​com filtros substituíveis foram a segunda melhor opção”, observa Mayuri.

Descarte correto

Por outro lado, naqueles ambientes onde a reutilização de máscaras não é conveniente ou inviável, ou seja, onde elas precisam ser obrigatoriamente descartadas — como ocorre nos hospitais — é preciso pensar em expedientes que garantam o descarte seguro dos equipamentos, tanto pelo ponto de vista sanitário, quanto ambiental, o que geralmente envolve segregação e incineração. Contudo também é preciso pensar naquelas pessoas que continuariam utilizando máscaras descartáveis, o que tornaria a reciclagem uma alternativa.

Porém, como esse tipo de equipamento costuma incluir materiais diferentes, pode haver uma complicação na possibilidade de reciclagem. Recuperar componentes de uma N-95, por exemplo, exige a manipulação das máscaras e representa um risco à saúde, o que faz com que as máscaras não sejam recicladas e sejam enviadas para os aterros sanitários. A alternativa seria utilizar menos materiais diferentes na produção e produtos mais fáceis de desmontar, exigindo menor trabalho e menor risco na reciclagem.

Outra possibilidade seria utilizar sintéticos biodegradáveis como primeiro passo no pensamento de design circular. “A planta da abacá, parente da bananeira, oferece uma opção potencial. Sua fibra repele a água melhor do que as máscaras tradicionais, é tão forte como polímero e se decompõe em dois meses”, destaca Mayuri.

Máscaras produzidas com a fibra do abacá, um parente da bananeira, são biodegradáveis (Imagem: Tyratoyado, via Ciclo Vivo)
Qual máscara você deve escolher?

Pensando exclusivamente no meio ambiente, segundo a especialistas Mayuri Wijayasundara, o ideal seria ter várias máscaras reutilizáveis. Porém, ao escolher uma máscara é preciso considerar onde ela será usada. “A menos que as máscaras de tecido demonstrem ser tão eficazes quanto outras máscaras, os profissionais de saúde não devem usá-las. Mas elas podem ser adequadas em ambientes cotidianos de baixo risco”, considera a especialista.

Pensando na possibilidade de estes equipamentos se tornarem um item frequente na vida cotidiana, governos e fabricantes precisam se esforçar para criar máscaras que não prejudiquem o planeta e os consumidores também precisam incluir mais este cuidado em sua já extensa lista de preocupações. Nesta lista, é claro, precisamos também prever o cuidado sanitário e ambiental na hora de promover o descarte das máscaras, quando ele for inevitável.

Devemos ter em mente que existe a perspectiva — e o imenso desejo — de a pandemia passar dentro de algum tempo, tornando o uso de máscaras novamente desnecessário. Porém, o efeito negativo que elas causarem sobre o planeta será permanente.

 

Uma dica

Para mais informações sobre os temas abordados nessa matéria, acesse os links disponíveis ao longo do texto. Eles remetem às fontes utilizadas aqui. 

Uma dica: os artigos fora da página do Comunidade Ativa que não estiverem em português podem ser traduzidos automaticamente pelo navegador pelo seu navegador. Pra isso, basta clicar com o botão direito em qualquer ponto do texto a ser traduzido e escolher a opção “Traduzir para o português”.