No Edifício Morato, um resumo da história do Anchieta e de uma das famílias mais tradicionais do bairro

Quem passa pela Rua Caratinga, na esquina com Odilon Braga, em frente à Igreja de São Mateus, no Anchieta, e encontra o grande edifício que domina toda aquela parte do quarteirão, talvez não imagine a tradição que aquele prédio abriga. Dividido em três blocos — A, B  e C —, o Edifício Morato está estreitamente ligado à família cuja trajetória se confunde com o desenvolvimento do bairro Anchieta e que tem representantes morando naquele mesmo ponto desde o final dos anos 1930.

Sítio do Morato
Flagradoem um passeio a cavalo pelas ruas do Anchieta dos anos 1940, Antônio Morato se mudou para o bairro em 1937, onde, por três décadas, viveu com a esposa Odete e com os filhos no sítio que possuía na antiga Rua Tuiuiu — hoje Odilon Braga (Foto: acervo da família Morato)

A história começa em 1937, quando o comerciante Antônio Morato e a esposa Odete resolveram se mudar do Carmo para o terreno que haviam adquirido na Rua Tuiuiu, como era denominada a Odilon Braga, nos tempos da antiga Vila Anchieta. Nos 6 mil metros quadrados que se estendiam da Rua Dom Vital até a Caratinga, o casal formou um belo sítio, onde, além da casa, havia tudo o que uma propriedade rural deve ter. “Sob a administração de um caseiro, meu avô sempre mantinha no sítio cavalos, vacas, porcos e cabritos. Também havia um galinheiro enorme e, é claro, os cães e os gatos. Havia ainda uma horta e o pomar com todos os tipos de frutas — jabuticaba, manga, laranja, abacate e muito mais”, diz Luiz Dutra, neto de Morato e de Odete, que chegou a brincar na propriedade quando criança.

Luiz conta que o avô era dono do Armazém Santo Antônio, que havia na esquina da Rua Montes Claros com a Grão Mogol. Portanto, como era comum naquela época, enquanto Seu Antônio Morato se encarregava do comércio, Odete se dedicava à lida da casa e à criação dos quatro filhos: Luiz Carlos, o mais velho, Maria Auxiliadora, a segunda a nascer, Antônio Augusto e o caçula José Eduardo, que se dividiam entre os estudos e as brincadeiras no sítio nos finais de semana.

Transformação

Com o passar do tempo, a cidade foi se transformando e, com ela, o Anchieta foi perdendo a característica rural e assumindo uma feição cada vez mais residencial. Nos anos 1960, os terrenos começaram a interessar quem percebia o futuro da região. Inicialmente, eram procurados para a construção de casas e, logo, para a construção dos primeiros edifícios do bairro.

Naquela época, os filhos de Antônio Morato e de Odete haviam crescido e constituído família, o que fez que eles optassem pela venda de partes do terreno, que já era muito grande para abrigar a família. Para o lote remanescente que restou na Caratinga, porém, a escolha foi por fazer uma permuta com a construtora que ergueria o edifício. O negócio foi feito de maneira a garantir um número suficiente de unidades que pudesse atender a cada um dos filhos e ainda permitisse que o casal reservasse alguns apartamentos para si.

Ocupando o que restava do sítio da família, a construção do Bloco A do Edifício Morato foi iniciada em 1968 (Foto: acervo da família Morato)

Em 1968, quando o Bloco A foi concluído, começou uma nova etapa da família Morato, que faria do condomínio o seu novo lar. “Minha avó adorou se mudar para um apartamento. Já o meu avô não se adaptou tanto e o gosto pela vida rural fez com que ele passasse a alternar a vida em BH com as estadias na fazenda que tinha em Leandro Ferreira, no interior de Minas”, conta Luiz.

Além do casal Morato e dos quatro filhos, logo outras famílias se mudariam para o edifício. Em breve, o número de moradores aumentaria ainda mais com a conclusão dos blocos B e C nos anos seguintes.

Assim, onde antes havia um sítio com grande diversidade de bichos e de plantações, surgiu uma verdadeira comunidade, repleta de crianças, que literalmente se esbaldavam nos amplos espaços da construção e nas ruas do bairro, onde a liberdade ainda era possível. “Eu tive uma infância maravilhosa, de fazer inveja. A gente se divertia com as brincadeiras de rua. Tínhamos mil amizades no prédio e no bairro, muitas das quais eu cultivo até hoje. Além disso, eu estava sempre próximo dos meus avós”, relembra Luiz, que atualmente também mora no Edifício Morato com a mãe, Maria Auxiliadora, a segunda filha de Seu Antônio, mais conhecida no Anchieta como Dona Lia.

Novas gerações

Dos quatro irmãos, Luiz Carlos e Antônio Augusto faleceram e José Eduardo mudou de endereço. Porém, a presença da família permanece sólida no edifício. Além de Lia e do filho Luiz, Márcio Herique, filho de Luiz Carlos, mora com a esposa e o filho no mesmo prédio onde chegou em 1973. “Naquela época, as missas da Igreja São Mateus ainda eram celebradas onde funciona hoje o Salão Dom João. A Rua Caratinga era mão dupla e o ônibus da Viação Anchieta tinha um ponto em frente ao prédio e depois subia a Joaquim Linhares.  O bairro tinha seus personagens que, desde meninos, conhecíamos e éramos amigos — como o Zé Porquinho, Goiaba, Tirage, Celso Carroceiro, Zalão e tantos outros — que passavam em frente ao nosso prédio e sempre saudavam a ‘patota’ que brincava ali o dia inteiro”, relembra Márcio Henrique sobre os tempos da infância.

Odete faleceu em 1988, sendo seguida no mesmo ano por Antônio Morato, que não se conformou com a partida da esposa. Com isso, eles não puderam acompanhar a vida dos 14 netos, o nascimento de grande parte dos 29 bisnetos e de nenhum dos cinco tetranetos. Tampouco puderam testemunhar o desenvolvimento acelerado do bairro que viram nascer e que ajudaram a formar.

Porém, se precisassem de uma descrição sobre como as coisas mudaram em 32 anos, a fala do neto Márcio Henrique seria bastante apropriada. “As crianças não têm mais condições de brincar nas r uas, as casas estão sendo substituídas pelos grandes edifícios, que esconderam a Serra do Curral, assim como, do alto da montanha, não avistamos mais o Edifício Morato. Mas, temos a certeza de que ambos estão lá, a Serra e o Edifício, nos devidos lugares, e o Morato continua representando um trecho deste bairro que tanto amamos e nos orgulhamos”.

 

(publicado originalmente na edição 119 da versão impressa do Comunidade Ativa de outubro de 2018)

 


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