Entre a calmaria e a agitação, os 124 anos do Carnaval de BH

Entre períodos animados, de intensa participação popular, e outros de absoluta calmaria, o Carnaval de Belo Horizonte está completando 124 anos de uma história que alia a renovação a uma longa tradição. De fato, o primeiro registro carnavalesco de BH ocorreu em 1897, ou seja, dois anos antes da inauguração da nova capital de Minas Gerais.

Em fevereiro daquele ano, uma rapaziada que trabalhava nas obras da cidade se vestiu de mulher e, a pé ou sobre carroças decoradas, saiu em desfile pela Praça da Liberdade, fazendo uma tremenda algazarra. Assim, de forma simples e autêntica, eles criaram uma manifestação que, mesmo assumindo formas diferentes ao longo dos anos, se repetiria nos carnavais seguintes.

Corsos e primeiros blocos de rua
Na nova capital, grupos de foliões fantasiados desfilavam em carros pela cidade (Foto: Reprodução/Belotur)

Foi dessa primeira farra espontânea que surgiram os corsos, os precursores dos blocos caricatos, que, anos mais tarde, se tornariam uma marca da folia belo-horizontina. Repetindo o que já acontecia em outras cidades, como em Recife e no Rio de Janeiro, no final do século 19 e início do 20, grupos fantasiados passaram a desfilar sobre carros decorados, lançando confete, serpentina e perfume sobre a turma, que seguia bagunçando atrás. Pouco depois, foram criadas as primeiras bandas, que animavam os carnavais populares, que aconteciam nas ruas, e também as festas mais sofisticadas dos clubes, que eram frequentados pelas classes mais altas.

A festa seguiu assim até o final dos anos 1940, quando a união entre foliões começou a se tornar mais organizada. Foi naquele tempo, mais precisamente em 1947, que surgiu o Leão da Lagoinha, o primeiro bloco de rua de BH, que permanece ativo ainda hoje.

Escolas de samba e blocos caricatos

Pensando em repetir por aqui o que já acontecia no Rio de Janeiro desde 1928, quando a Deixa Falar foi fundada como a primeira escola de samba carioca, nos anos 1950, foram surgindo as versões belo-horizontinas daquelas agremiações — como a Canto da Alvorada, a Cidade Jardim e a Mocidade Unidade Vera Cruz, entre outras. Entre o final da década e o início dos anos 1960 foi a vez da criação dos blocos caricatos, que eram mais organizados do que os antigos corsos, mas menos sofisticados do que as escolas de samba.

Em 1965, um grupo de garotos do bairro que queria participar do Carnaval fundou o Aflitos do Anchieta (Foto: acervo do Aflitos do Anchieta)

Entre os pioneiros estava o Bloco dos Cartolas, fundado no Anchieta. Em 1965, um grupo de garotos do bairro que, por serem menores, não conseguiam desfilar no Cartolas, decidiu criar o Bloco Caricato Aflitos do Anchieta, que se tornaria um dos mais tradicionais da cidade, conquistando vários prêmios no Carnaval de BH e que ainda hoje continua fazendo a farra nos desfiles da Afonso Pena.

Declínio e calmaria

Em 1980, buscando ordenar a folia, a Prefeitura Municipal de Belo Horizonte (PBH) publicou o Decreto nº 3.676, que oficializou o Carnaval de BH como uma iniciativa pública. Esta medida criou grande expectativa de que, a partir daquele ato, o evento viesse a se desenvolver plenamente e que passasse a figurar como um dos grandes acontecimentos da cidade.

Contudo, a realidade contrariou esse desejo e se apresentou de forma inteiramente oposta. Na década de 1990, a mesma PBH deixou de apoiar as escolas de samba e os blocos caricatos, o que praticamente matou o Carnaval de rua de Belo Horizonte.

Para os que tinham maior poder aquisitivo, restaram os carnavais dos clubes ou a opção de buscar em outras cidades a alegria que já não se encontrava existia em BH. Enquanto isso, os desfiles das escolas de samba e dos blocos chegaram a ser paralisados, instalando por aqui um clima contrário a tudo o que se espera de um Carnaval.

De fato, houve a tentativa de promover os bailes nas regionais, mas que não duraram muito tempo. Em paralelo, tentou-se também emplacar por aqui os trios-elétricos que fazem sucesso em Salvador. Mas, a repercussão não foi tão bem aceita como se esperava e a folia belo-horizontina se manteria ainda por muito tempo sem grandes atrativos.

No início dos anos 2000, os desfiles dos blocos e das escolas retornaram, mas sem a devida consideração por parte do poder público. Tanto que, como se representassem um inconveniente para a cidade, ficaram sendo jogados de um lado para outro, ano após ano.

Da Afonso Pena, palco que, dos anos 1960 aos 1980, foi consagrado como a sede do Carnaval belo-horizontino, os desfiles foram enviados para a Avenida do Contorno, no Barro Preto. Dali voltaram para a Afonso Pena para, em seguida, serem enviados para a Via 240, no bairro São Gabriel, para depois voltar para a Afonso Pena, destacando uma indecisão que só atrapalhava a retomada da folia na cidade.

Renascimento
Além dos grandes blocos de rua, vários bloquinhos surgiram nos bairros para fazer a alegria local. Como o GambáNaGamboa, que, por cinco anos, fez a festa na Penafiel (Foto: Carlos Alberto Rocha)

A situação permaneceu mais ou menos assim até 2009, quando, por iniciativa popular, independente da PBH, foram criados os primeiros blocos de rua, que fizeram renascer o Carnaval de Belo Horizonte. Evidenciando a disposição que o belo-horizontino tem para honrar a tradição carnavalesca da cidade, em pouco carnavais, os blocos que inicialmente não eram muito se tornaram dezenas, para depois virarem centenas.

Alguns desses se agigantaram e passaram a arrastar milhares de pessoas. Outros tantos, menores, se foram criados nos bairros, atendendo a todos os gostos e fazendo prevalecer a vontade da brincadeira despojada na rua, como a que havia em outros carnavais.

O resultado foi a rápida transformação do Carnaval belo-horizontino, que, de praticamente inexistente, em dez anos se tornou um dos mais animados do Brasil. Tanto que, segundo a Belotur, em 2020, 347 blocos promoveram quase 400 cortejos pela cidade, atraindo a atenção de 4,45 milhões de foliões,

inclusive dos que vieram de outras cidades mineiras, de vários estados brasileiros e até do exterior.

Com a folia renovada e com a PBH dando a ela o valor que antes havia sido negado, os blocos caricatos e as escolas de samba também passaram a experimentar uma nova era, de maior organização e de melhores perspectivas para o futuro. Assim, a promessa de animação nos próximos carnavais permanece viva, inclusive no Anchieta e nos demais bairros vizinhos.

Carnaval local
Ao lado do Aflitos do Anchieta, em 2019, o Real Grandeza também passou a representar a região nos desfiles da Afonso Pena (Foto: acervo Bloco Caricato Real Grandeza)

Em meio a toda a agitação que tomou conta da cidade, vários blocos de rua também apareceram na região do Anchieta, que se tornou uma das referências de animação do Carnaval de BH. Entre eles, o GambáNaGamboa, o Aflifolia, Abre Que Eu Tô Passanu, Sai Zi(c)ka e Insanidade passaram a reunir foliões de todas as idades, que encontraram perto de casa a melhor alternativa para brincar o Carnaval.

Foi nesse ambiente que, em 2018, foi fundado no Anchieta o Real Grandeza, um novo bloco caricato que marcou a sua estreia na Afonso Pena no Carnaval de 2019 e que, junto com o Aflitos, passou a representar o bairro na avenida. Assim, essa tradição do Carnaval belo-horizontino também demonstrou que pode se renovar e garantir a manutenção de uma das principais características do nosso Carnaval, que existe na forma dos blocos caricatos.

De 2009 até o ano passado, portanto, ano após ano, vimos a alegria se espalhar pelas ruas de BH e, com intensa participação popular, conseguimos resgatar a festa que BH abraçou antes mesmo de ser inaugurada. Agora, vivemos nova interrupção nessa história. Neste Carnaval de 2021, por imposição da Covid-19, novamente nos deparamos com a calmaria das ruas vazias e com o silêncio que não combina com esta época do ano.

Mas, sabemos que tudo isso vai passar. Assim que possível, voltaremos a festejar a vida e faremos isso com animação ainda maior do que qualquer uma que possa ter existido nos últimos 124 carnavais.

 


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