Espantando o tédio que o distanciamento social provoca

Sabe esses dias em que horas dizem nada e você nem troca o pijama, preferia estar na cama? Um dia a monotonia tomou conta de mim. É o tédio, cortando os meus programas, esperando o meu fim.

Nessa época de pandemia, que exige a gente passe maior tempo em casa, a música Tédio, que foi hit da banda Biquini Cavadão no anos 1980, está mais atual do que nunca. Afinal, para quem se acostumou a uma vida agitada, repleta de tarefas profissionais e de compromissos sociais, o trabalho em home office e a restrição dos contatos com lugares e com pessoas trouxe uma rotina entediante, que pode acabar levando a atitudes de perigosa rebeldia.

Não é por acaso que, mesmo consciente dos riscos, entre ficar em casa, como recomendam os especialistas, e se expor ao vírus em bares e festas há quem prefira a segunda opção. Mas, o que pode ser feito para combater a ansiedade provocada pela necessidade de distanciamento social?

Afastando o tédio

Em entrevista para a BBC, a professora de Psicologia Erin Westgate, da Universidade da Florida, nos Estados Unidas, destaca que o primeiro passo seria compreender os motivos que levam as pessoas a se entediarem. A partir disso, é possível buscar soluções.

Segundo Erin, é preciso considerar que o tédio não precisa ser avaliado como algo bom ou ruim. Inclusive, ela aponta estudos que revelam o sentimento como encorajador de boas iniciativas  — como as que levam as pessoas a participarem de campanhas de doação de sangue ou de caridade, por exemplo. “Realmente, diz respeito às maneiras como respondemos a isso e estas respostas são limitadas pelos ambientes em que estamos e pelas escolhas que eles nos oferecem”, explica a professora.

Para combater o tédio, Erin começou a colecionar plantas em casa (Foto: Erin Wesgate, via BBC)

Para Erin, mesmo com as limitações da pandemia, há muitas maneiras de as pessoas escaparem do tédio e, consequentemente, permanecerem mais tempo em casa, contribuindo com o combate ao vírus. Como exemplo, ela cita a própria atitude, que a levou a criar um jardim interno em casa, como uma forma de escapar da sensação desagradável que o tédio provoca.

Pense antes

James Danckert, professor de Neurociência Cognitiva da Universidade de Waterloo, no Canadá, que é coautor de um estudo sobre a relação entre o tédio e a pandemia, conta que costuma tocar violão e escrever músicas para preencher as horas que seriam preenchidas pelo tédio. Segundo Danckert, a primeira coisa a ser feita é parar de pensar no fato de que você está entediado. “Tudo o que o tédio faz é focar a pessoa naquele sentimento desconfortável”, diz o professor.

Como reação, pode surgir a vontade de sair ou de convidar um amigo para dentro de casa, fazendo isso sem considerar as possíveis consequências. Dankert recomenda que as pessoas reflitam, antes de agir na tentativa de escapar do tédio. “Reflita sobre o motivo de você estar entediado agora. Você está preso há 11 meses e não ficou entediado 100% do tempo”, ele recomenda. Para o professor, descobrir por que você se sente insatisfeito com uma atividade pode ajudar a encontrar a alternativa certa.

Lista na geladeira

Para facilitar as próprias decisões, a psicóloga Erin Westgate criou uma lista de sugestões de atividades para ela mesma, que fica bem visível, pregada na geladeira. “Eu agora tenho 52 plantas em casa. Quando a pandemia começou, eu não tinha nada. Então, aparentemente, estou canalizando o tédio para criar uma selva urbana”, brinca.

Segundo Erin, não é necessário que a pessoa crie algo grandioso para fazer diferença em seu estado mental. A atividade pode ser algo bastante simples, como tricotar um ponto fácil ou pegar uma xícara de café, quando isso é algo que você realmente deseja. O segredo está em encontrar uma atividade qualquer que pareça significativa naquele momento e com a qual você de fato deseje realizar.

E isso não é tão difícil. A tecnologia hoje proporciona uma infinidade de opções que podem libertar as pessoas de uma rotina chata — como cursos online, videogame, filmes e ebooks, entre outras. Ou, para aquelas menos adeptas do universo tecnológico, existem as alternativas da jardinagem, da culinária e uma infinidade de afazeres domésticos que poderão preencher o tempo que, quando havia normalidade, era gasto fora de casa.

Então, antes de permitir que o tédio leve você para a rua sem real necessidade, procure encontrar aquilo que pode lhe dar satisfação dentro de casa mesmo. Assim, além de preservar a sua saúde, você contribui para que a pandemia demore menos a passar.


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