Qanon: a teoria da conspiração que está se espalhando pelo mundo já ameaça o Brasil

Imagine que o mundo esteja sendo governado por um Estado paralelo, que é composto por magnatas, artistas e políticos, que, junto com outras pessoas influentes, sejam adoradoras de Satanás e membras de uma rede de pedofilia. Imagine ainda que essas pessoas sejam apoiadas pela China e que tenham como objetivo final entregar os seus respectivos países ao domínio comunista.

Por mais absurdas que pareçam, essas são algumas das ideias que sustentam a teoria da conspiração Qanon, que começou a ganhar corpo nos Estados Unidos em 2017, no primeiro ano do governo Trump. Bastante difundido entre a extrema-direita norte-americana, esse tipo de pensamento também vem dando sinais em outros países. Inclusive no Brasil, onde tem adaptado os discursos à realidade nacional.

O Q da conspiração

O Q da sigla Qanon vem da identidade assumida por um suposto militar norte-americano de alto escalão que, anonimamente (daí o anon, de anonymous), seria o responsável por vazar informações secretas sobre um tal estado profundo (deep state) que estaria dirigindo os destinos do Estados Unidos e, consequentemente, de todo o planeta. Sobre essa base, formou-se um emaranhado de afirmações nem sempre conectadas umas com as outras e que sustentam as argumentações dos adeptos de uma espécie de seita, que enxerga em Donald Trump a figura do salvador.

Por isso, a imagem do ex-presidente está tão presente nas manifestações dos seguidores do Qanon na internet. Eles também podem ser identificados pela hashtag WWG1WGA, que significa where we go one, we go all (onde vamos um, vamos todos), uma espécie de ninguém larga a mão de ninguém na versão do grupo.

Simbolizado pela letra Q, o Qanon tem como slogan Were we go one, we go all, que significa onde vamos um, vamos todos (Foto: Wikimedia)
Danos pelo mundo

Caso esse pessoal se ocupasse apenas de debates na internet sobre as teses mirabolantes que defende, os riscos se manteriam altos. Afinal, muitas vezes, é daí que surgem notícias falsas que abastecem a desinformação, que, ao lado das armas nucleares, de riscos tecnológicos e das mudanças climáticas, atualmente é vista como uma das grandes ameaças que recaem sobre a humanidade e sobre o planeta. Entretanto, os adeptos do Qanon já partiram para ações práticas, que ameaçam diretamente a ordem e a própria democracia em seus países.

Nos Estados Unidos, o caso mais notório de atuação dos seguidores do Qanon no mundo real foi a invasão do Capitólio, ocorrida no último dia 6 de janeiro. Entre os manifestantes, que protagonizaram cenas até então compatíveis somente com obras de ficção, estavam várias pessoas carregando o Q, que identifica a teoria.

Mais do que isso, o invasor Jake Angeli, que se tornou o personagem símbolo daquele dia, é visto como um dos representantes mais radicais do grupo e é reconhecido como o Xamã Qanon pelos seus pares.

Cinco meses antes, protestos contra as medidas de combate à Covid-19 adotadas pelo governo da Alemanha colocaram lado a lado apoiadores do Qanon e membros do Reichsbürger (Cidadãos do Reich), um grupo neonazista que, há anos, vem sendo acompanhado pelas autoridades locais e que já se envolveram em ações criminosas anteriores. Desta união surgiu uma tentativa de invasão do Reichstag, o parlamento alemão, em Berlim, que só não se consolidou graças à intervenção da polícia.

No ano passado, a polícia também teve que atuar firmemente durante as comemorações pelo Dia da Liberdade da Austrália, celebrado em 5 de setembro, quando em Melbourne foram registrados confrontos com manifestantes contrários ao uso de máscaras e ao lockdown adotado no combate à pandemia. Os protestos foram apoiados pelos seguidores do Qanon no país, que também já preocupam as autoridades locais.

Aliás, vale destacar que, mesmo antes do evento do Capitólio, essa preocupação também já existia nos Estados Unidos. Tanto que alguns dos adeptos da teoria já vinham sendo monitorados pelo FBI como potenciais terroristas domésticos.

Jake Angeli, que se tornou um personagem de destaque na invasão do Capitólio em 6 de janeiro, é tido como o Xamã Qanon pelos seus pares (Foto: AP Photo/Manuel Balce Ceneta – Via The Conversation)
Danos às famílias

Além dos tumultos e das ameaças terroristas, o extremismo tem provocado danos direto às famílias. Em entrevista para a BBC, por exemplo, a jovem Louise relatou como o relacionamento antes saudável que ela tinha com a mãe Margareth, com quem mora no Canadá, se deteriorou em função do Qanon, chegando ao ponto de se tornar quase inviável.

Segundo Louise, ambas viviam em boa harmonia, compartilhando ambientes e receitas de bolo, até que a mãe conheceu a teoria da conspiração. A jovem conta que, enquanto a pandemia se espalhava pelo mundo, sem acreditar na gravidade da situação, Margareth se rebelou contra o uso de máscara e contra as medidas de isolamento social e passou a buscar respaldo na internet. Logo, encontrou as teorias que iam ao encontro do que ela queria, carregando consigo as ideias de que Trump estaria empenhado em libertar o mundo de Satanás e da pedofilia.

Cada vez mais envolvida com as ideias de conspiração, Louise conta que Margareth começou a organizar reuniões clandestinas em sua casa nos períodos de decretação de lockdown na cidade onde mora, o que aumentou a apreensão da filha. Como consequência, a garota, que é asmática, começou a temer pela própria saúde e a se sentir ameaçada pelo comportamento inadequado da mãe. Pensando nisso, ela resolveu se mudar para o porão da casa, colocando fim ao bom relacionamento que existia entre elas.

A jovem conta que, nos últimos oito meses, as duas tiveram apenas cinco conversas. Na mais recente, Margareth teria manifestado grande preocupação com as informações que recebeu sobre a concentração de tropas chinesas na fronteira do Canadá com os Estados Unidos, que, segundo acredita, estariam somente aguardando um sinal do presidente Joe Biden para iniciarem a invasão.

Avanço no Brasil

Mesmo que o comprometimento oficial com a matriz norte-americana ainda não tenha sido assumido, no Brasil também é possível encontrar inúmeros publicações nas redes sociais que apresentam claras conexões com os posicionamentos dos adeptos do Qanon. No Twitter, por exemplo, não é difícil identificar pessoas — ou robôs — que se articulam entre si para, em um único dia, publicarem centenas de ataques a personalidades e a instituições públicas e privadas.

Passando ao largo de posicionamentos ideológicos legítimos e de opiniões que possam fazer parte de qualquer debate saudável, nas publicações são comuns as argumentações que distorcem a realidade e há conteúdos inteiros completamente falsos — como os tantos que ultimamente depõem contra a segurança das vacinas. Sem qualquer preocupação em apresentar provas reais que resistam a uma verificação direta, os autores mantêm alvos variados, que vão das medidas de combate à Covid-19 a membros do Supremo Tribunal Federal (STF) e de partidos políticos a empresários e empresas.

Não resta dúvidas de que toda essa celeuma causada pela desinformação só tem criado mais desordem. Com isso, ao mesmo tempo em que as atitudes que contariam as medidas de combate à pandemia são reforçadas, colocando em risco a saúde pública , e que as intrigas políticas, que ameaçam a estabilidade nacional, continuam sendo abastecidas, a divisão entre as pessoas, que abalam famílias e amizades, vão sendo instigadas.

Portanto, antes que o mal do Qanon crie raízes também no Brasil, devemos cuidar para que o bom senso e a busca por informação isenta e com boa qualidade atuem como os melhores antídotos para combater mais essa tragédia, que tem um potencial de destruição avassalador.

 


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