Lição da história: o que aconteceu quando as pessoas deixaram de lado o combate à Gripe Espanhola?

O enredo é mais ou menos o mesmo. Um vírus com letalidade considerável e alto poder de contágio se espalha pelo mundo. Para combatê-lo, as autoridades sanitárias recomendam uso de máscara e distanciamento social, o que um grande número de pessoas obedece em um primeiro momento, enquanto outras e rebelam. Porém, com o passar do tempo, cansadas das regras rígidas, mesmo as mais contidas começam a ceder.

Como nos dias atuais, a Gripe Espanhola de 1918 também lotou os hospitais, levando os sistemas de saúde aos níveis de colapso no atendimento (Foto: Wikimedia)

Enquanto isso, ansioso por retomar a atividade econômica, justificadamente, o empresariado pressiona para que os estabelecimentos voltem a funcionar normalmente. Na mesma toada, outros setores vão aderindo e o surto da doença começa a ser relegado a um segundo plano. Afinal, o mundo precisa seguir seu curso, é o que dizem.

Entretanto, como o vírus não se importa com as aflições humanas, ele também continua em sua trajetória de causar sofrimento e morte.

Otimismo precoce

Este cenário, que nos parece familiar, foi resgatado pelo historiador J. Alexander Navarro, diretor do Centro de História da Medicina da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, que conta como, há 100 anos, as pessoas foram deixando de lado o enfrentamento à Gripe Espanhola.

De acordo com Navarro, naquele tempo, a população americana começou a clamar pela volta à vida normal, fazendo coro com as empresas que pressionavam as autoridades para que pudessem reabrir os estabelecimentos. Otimistas com a queda do número de casos que, em outubro de 1918, foi obtida pelas medidas de contenção da doença que haviam sido adotadas, os governos estaduais e municipais começaram a derrubar os decretos de saúde pública, voltando os esforços para enfrentar a devastação social e econômica que a gripe havia causado.

Reconstrução e descaso

De fato, segundo o historiador, havia muito a ser reparado. As centenas de milhares de mortos no país haviam deixado tristeza e pesar nos amigos e familiares. Ao mesmo tempo, muitos outros contaminados  precisavam receber cuidados especiais na recuperação. Sem contar com uma rede pública de segurança, os cidadãos acabavam sendo socorridos por entidades caritativas, que agiam para fornecer recursos para as famílias que havia perdido o ganha-pão e para o imenso número de órfãos produzido pela doença.

Já naquele tempo, o uso de máscara era reconhecido como um dos recursos eficazes para diminuir o contágio por vírus (Foto: Wikimedia)

“Para a grande maioria dos americanos, porém, a vida após a pandemia parecia ser uma corrida precipitada para a normalidade. Famintos pelas noitadas em suas cidades, por eventos esportivos, serviços religiosos, interações em sala de aula e reuniões familiares, muitos estavam ansiosos para retornar às suas velhas vidas”, conta Navarro. Assim, respaldada pelas decisões exageradamente otimistas das autoridades públicas, a população apressou para retomar a rotina que havia antes da pandemia, lotando cinemas, lojas e salões de dança, promovendo festas e extravasando toda a ansiedade acumulada.

O poder público lava as mãos

Diante desta situação, as autoridades alertaram a nação para a probabilidade de, ainda por meses, continuarem acontecendo novos contágios e mortes. “Entretanto, o fardo da saúde pública agora não recaía sobre a política, mas sobre a responsabilidade individual”, destaca o historiador.

Como era de se prever, a pandemia avançou e se estendeu de uma segunda para uma terceira onda mortal, que durou até a primavera de 1919. Houve ainda a quarta onda, que veio com o inverno dos Estados Unidos de 1920. “Algumas autoridades atribuíram o ressurgimento (da epidemia) aos americanos descuidados. Outros minimizaram os novos casos ou voltaram sua atenção para questões mais rotineiras de saúde pública, incluindo outras doenças, inspeções em restaurantes e saneamento”, diz Navarro.

Mesmo com a pandemia persistindo, a gripe foi perdendo a importância e se tornou notícia velha. Enquanto antes frequentava o noticiário com destaque, logo foi reduzida a notas esporádicas, escondidas nas últimas páginas dos jornais. Navarro destaca que o povo americano seguiu em frente e se acostumou com o caro pedágio que a pandemia já havia cobrado da nação, vendo com normalidade as mortes que ainda estavam por vir. “Em grande parte, as pessoas não estavam dispostas a retornar às medidas de saúde pública social e economicamente prejudiciais”, considera.

Um poster da época orientava para as medidas de prevenção recomendadas pelas autoridades de saúde (Foto: Wikimedia)
A história pode se repetir?

Vale lembrar que, naquele tempo, ainda não havia o recurso de uma vacina contra a gripe, que surgiria somente anos mais tarde. De fato, felizmente, para enfrentarmos a pandemia atual podemos contar com essa defesa adicional. Além disso, Navarro considera que a ciência está mais preparada, com um conhecimento muito mais apurado sobre os mecanismos de ação dos vírus e sobre as formas como as epidemias se manifestam. Com base nas experiências anteriores, também sabemos que o distanciamento social e o uso de mascara ajudam a salvar vidas.

Para o historiador, manter todos esses fatores de combate ao coronavírus ou diminuí-los pode significar a diferença entre o fim mais rápido da pandemia e o surgimento de uma nova doença. Afinal, também já sabemos que a Covid-19 é muito mais transmissível do que a gripe e que há muitas variantes do SARS-CoV-2 se espalhando pelo mundo, o que pode prolongar e intensificar ainda mais os danos da doença, caso ela não seja encarada com a devida seriedade. “A mortal terceira onda de gripe em 1919 mostra o que pode acontecer quando as pessoas relaxam prematuramente a guarda”, conclui Navarro.

 


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