O descarte correto de equipamentos eletroeletrônicos pode render bilhões de dólares

por Carlos Alberto Rocha*

Enquanto a família se alegra com a chegada da TV 8 k, a indústria já desenvolveu a tela com resolução em dobro, 16 k. O smartphone mais moderno de 2020 está sendo ultrapassado pelos lançamentos de 2021. Festejado há pouco mais de um ano pelas inovações que oferece, o processador i9, da Intel, está longe de ser obsoleto, mas em alguns quesitos foi superado por versões posteriores, que já incluem uma décima geração. E assim caminha a tecnologia.

Aliás, foi o químico americano Gordon Moore, um dos fundadores da Intel, que, em 1965, publicou a famosa Lei de Moore, que vaticina que, a cada 18 meses, os processadores dobrarão a capacidade de processamento, mantendo o mesmo valor de produção. Mas não são só esses componentes que evoluem. Quanto mais avançada se torna a tecnologia, mais rapidamente surgem novos avanços, nos mais variados segmentos.

Assim, com uma velocidade cada vez maior, a cada piscar de olhos, a indústria de equipamentos eletroeletrônicos lança novos aparelhos, mais eficientes e sofisticados que os antecessores, o que é ótimo. Afinal, assistir a um filme numa tela com alta definição e som bem equilibrado é uma experiência muito mais agradável que a proporcionada pelas TVs com tubos de imagem do passado, por exemplo.

Tudo se transforma

Usufruir das vantagens tecnológicas é algo desejável e até necessário em muitas situações. Até aí, tudo bem. Mas, o que fazer com os aparelhos que se tornam ultrapassados ou que se estragam, sem conserto?

Para quem pensa que a via de consumo tem mão única, a resposta para o dilema dos equipamentos que já não servem mais é muito simples: “jogar fora!”, é o que dizem. Mas, há um grande defeito nesse raciocínio. Afinal, se pensarmos em termos de “planeta Terra” não existe um “fora”, onde o que não nos interessa mais possa ser jogado.

Todos os resíduos que produzimos permanecem aqui, seguindo o que diz outro célebre vaticínio, o da fatídica lei de conservação da matéria de Lavoisier, que todo mundo sabe na ponta da língua: “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Em obediência ao que é inevitável, há décadas, os equipamentos elétricos e eletrônicos que um dia foram modernos e cobiçados e que com o passar do tempo vão se tornando ultrapassados estão se transformado em um tipo de resíduo que acumula em pilhas gigantescas e perigosas.

53,6 milhões de toneladas

De acordo com o Global E-waste Monitor 2020 (Monitor do Lixo Eletrônico Global) — um levantamento de entidades internacionais que incluem a Universidade das Nações Unidas (UNU) e a Associação Internacional de Resíduos Sólidos (ISWA, na sigla em inglês) e conta com a contribuição da Organização Mundial de Saúde (OMS) — , em 2019, o mundo gerou a bagatela de 53,6 milhões de toneladas de resíduos eletrônicos. Um recorde, que representa 21% a mais do que a geração registrada em 2014 e equivale ao peso de mais de 49 mil estátuas do Cristo Redentor do Rio de Janeiro.

Em 2019, 53,6 milhões de toneladas de equipamentos eletroeletrônicos foram descartadas em todo o mundo e o Brasil respondeu por 4% desse total (Imagem: PXHere)

A maior parte desse resíduo poderia ter sido reciclada, com grande ganho ambiental e financeiro. Segundo a ISWA, todo o material descartado, que inclui ouro, cobre e outros metais, tem valor estimado em US$ 57 bilhões. Contudo, apenas 17,4% do volume total de eletroeletrônicos inservíveis receberam destinação adequada.

O restante continua empilhado em um lugar qualquer, sem receber armazenamento devido, o que é extremamente arriscado.

Danos à saúde e ao planeta

Grande parte dos materiais utilizados na produção de equipamentos eletroeletrônicos oferece graves riscos ao meio ambiente e, consequentemente, à vida de todos os seres vivos. Inclusive à nossa. Um exemplo terrível vem dos metais pesados —mercúrio, níquel, chumbo e cádmio — que estão presentes em vários componentes dos aparelhos e que são extremamente prejudiciais à saúde.

Há também outros elementos químicos agressivos ao meio ambiente que entram na fabricação de produtos diversos que merecem atenção. Como o gás freon, de geladeiras e de aparelhos de ar condicionado mais antigos, que prejudica a camada de ozônio. Por isso, saiu de circulação no mundo todo, inclusive no Brasil, onde não é utilizado desde 2003. Porém, mesmo o gás substituto, o R22, que não é inteiramente inerte para o ozônio e apresenta alto potencial de retenção de calor, oferece contribuição significativa para as alterações climáticas  e tem sido menos utilizado na produção de aparelhos fabricados em países desenvolvidos.

De acordo com a ISWA, 0,3% das emissões globais de gases de efeito estufa em 2019 foi proveniente apenas do descarte incorreto de geladeiras e de aparelhos de ar condicionado.

Consumo consciente

Resistir às tentações da tecnologia nem sempre é fácil ou possível, uma vez que os benefícios que aparelhos mais eficientes proporcionam são inegáveis. Entre outros aspectos, eles aumentam o conforto, facilitam as rotinas diárias, melhoram as formas de entretenimento e a produtividade no trabalho. Contudo, nada impede que a consciência aja nas decisões de consumo.

Por exemplo, antes de adquirir um produto novo, não há nenhum problema em considerar se ele é realmente necessário ou se a compra não será impulsionada apenas por um estímulo consumista. Se de fato os ganhos com o novo equipamento forem reais e justificáveis, também é preciso pensar no que fazer com o aparelho que será substituído.

Fim de linha

Se um aparelho antigo ainda estiver em condições de uso, a venda ou a doação são as melhores alternativas. Claro! Contudo, há momentos em que o equipamento se torna completamente obsoleto ou apresenta um defeito irreparável, o que exige que ele seja descartado.

Quando chega essa hora, a única solução racional é enviar o equipamento inservível para alguma empresa que dê a destinação correta para esse tipo de resíduo. Felizmente, em Belo Horizonte existem aquelas que fazem a coleta domiciliar sem custo nenhum (confira abaixo três dicas).

Mineração urbana

Na hora de fazerem o desmonte, em geral, as empresas especializadas nesse segmento obedecem às regras de segurança indicadas para o manuseio dos componentes. Assim, sem oferecer risco ao meio ambiente, elas conseguem reaproveitar materiais diversos, que retornarão para a indústria de reciclagem ou que serão negociados diretamente no mercado. Ouro, cobre e alumínio, por exemplo, são metais com alto valor agregado que podem ser retirados de aparelhos descartados e vendidos à indústria.

Isso significa que, além de evitar os danos ambientais, a destinação correta do resíduo eletroeletrônico representa geração de riqueza, permitindo o desenvolvimento de uma atividade econômica definida como “mineração urbana”. Para termos uma ideia do que esse mercado significa em termos de valores, basta dizer que, de acordo com o Global E-waste Monitor 2020, o Brasil produziu 2,143 milhões de toneladas de lixo eletroeletrônico em 2019, o que corresponde a cerca de 4% do total gerado mundialmente.

Ou seja, o resíduo eletroeletrônico brasileiro tem valor de mercado de US$ 2,28 bilhões! Entretanto, um relatório da Comissão de Direito Ambiental da Ordem dos Advogados do Brasil, que foi apresentado ao Senado Federal em 2019, indica que apenas 2% dos resíduos eletrônicos brasileiros são devidamente aproveitados. Com isso, uma verdadeira fortuna está sem nenhum proveito e, o que é pior, agravando o problema ambiental.

Portanto, se for inevitável trocar os seus aparelhos eletroeletrônicos, não deixe de dar a destinação adequada aos antigos. Confira a seguir um vídeo da ativista Annie Leonard, de 2010, mas que ainda é bastante oportuno.

  • Para legendar o vídeo no YouTube, clique na engrenagem indicada pela seta vermelha na imagem abaixo, que fica na extremidade direita da tela de exibição.

 

    * Carlos Alberto é jornalista e especialista em Educação Ambiental


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Uma dica

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