Ciências Humanas são tão importantes quanto Exatas e Biológicas, diz professora de Harvard

Em um mundo que ainda nem saiu de uma pandemia e já se vê sob a ameaça da guerra, quando é necessário pensar de maneira especial na saúde e nos meios de produção, há quem atribua valor absoluto às ciências biológicas e às exatas, fazendo isso em detrimento das ciências humanas. De fato, como sempre foram, médicos e engenheiros das mais variadas especialidades são essenciais em um tempo de enfrentamentos e de recuperação. Mas, será que historiadores, filósofos, jornalistas, sociólogos e outros profissionais de humanas também têm papel social relevante?

Governança

Para a cientista política Danielle Allen, que é professora da Universidade de Harvad, a capacidade de governança de uma sociedade — ou seja, a capacidade de definir processos de decisão e de implementação de medidas públicas de interesse social e de administração de recursos públicos — está atrelada às ciências humanas. Em entrevista à BBC Brasil, Allen destaca que o economista Herbert Simon, ganhador do prêmio Nobel, demonstrou que, em grande parte, os países mais ricos do mundo devem a posição privilegiada à boa governança, o que valoriza as ciências sociais.

Dirigente do Centro de Ética Edmond J. Safra de Harvard, Allen estuda os conhecimentos e as habilidades necessários à condução de regimes democráticos. Nos vários livros que publicou, a professora avalia como a redução de investimentos nas áreas de humanas e sociais geram menor participação dos cidadãos na sociedade. “Com certeza, o tamanho de nossas populações, nossas capacidades tecnológicas e nosso potencial de saúde aumentaram drasticamente por causa das ciências biológicas e da engenharia. Mas, a razão pela qual temos instituições democráticas é por causa de disciplinas como filosofia, sociologia, direito e história, entre outras”, ela afirma.

Tão importantes quanto

A cientista reconhece a necessidade de fomento das ciências exatas e das biológicas, mas percebe também que essa estratégia não deve impedir o desenvolvimento das demais áreas, que são indispensáveis à sociedade e cujos resultados podem ser medidos. “Boas leis, instituições estáveis e estruturas de governança produtivas aumentam a riqueza de uma sociedade. Todos estes de conhecimentos têm resultados mensuráveis, nós apenas nos esquecemos de medi-los”, observa.

Uma vez que levam à evolução da sociedade e, portanto, da própria civilização, Allen considera as ciências humanas tão importantes quanto as ciências exatas e biológicas. Nesse sentido, ela destaca o fato de disciplinas como filosofia, história e literatura nos levarem a questionar o que devemos fazer, quais são os propósitos da humanidade e quais devem ser os nossos objetivos. “Você precisa questionar tanto o que devemos fazer quanto como devemos fazer. Você não pode abandonar as disciplinas que ajudam as pessoas a pensarem sobre quais são os propósitos humanos”, ela avalia.

Allen defende que, ao lado das ciências Biológicas e das Exatas, o ensino de Ciências Humanas — como sociologia e filosofia — deva fazer parte do currículo escolar desde o início da educação. “É com o tempo que você constrói habilidades nas áreas de conhecimento. Quanto antes começar o ensino de ciências humanas, melhor. Se for só na universidade, você já começa atrasado”, conclui.

 


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